[FESTBRASÍLIA] MORTE E VIDA MADALENA
[COBERTURA DO 58º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO 2025]
MORTE E VIDA MADALENA
de Guto Parente
Morte e vida Madalena começa onde Estranho caminho (ver aqui) terminou: com a morte de um pai. Quase o mesmo
pai, uma vez que ambos são representados pelo ator Carlos Francisco. A
diferença crucial, no entanto, é que, em vez do cemitério e da citação de
Bresson do filme anterior, o velório agora acontece em um cinema, o Cineteatro
São Luiz, de Fortaleza. Durante o velório, o distraído Davi (Marcus Cervelo)
acidentalmente pisa em um pedal que aciona a fumaça cenográfica, instalando um
inesperado tom de humor que marca a obra.
É curioso que o novo filme de
Guto Parente tenha aberto a mostra competitiva do Festival de Brasília logo um
dia após a grande abertura com O Agente Secreto. Embora ambos dialoguem
fortemente com o circuito de festivais internacionais, seus projetos e caminhos
dentro do cinema brasileiro são bastante diferentes. Em um momento de intenso
debate sobre a inserção industrial da produção nacional, Guto Parente nos
oferece uma pequena ode ao cinema independente de feitura artesanal.
A produtora Madalena (Noá
Bonoba) se vê às voltas com as filmagens de um novo filme, logo após a morte de
seu pai. Os homens falham em dar conta da direção: seu pai morre; seu
companheiro Davi foge; o ator substituto improvidado Oswaldo (Tavinho Teixeira)
“não consegue segurar sua onda”. É a própria Madalena quem precisará dirigir
esse filme. Ela lida com a gravidez, e com todos os problemas da produção de um
filme: a falta de dinheiro, a burocracia dos “fundos” do cinema; a ameaça de
uma greve.
Se esse é um filme pessoal para
Madalena por prosseguir o projeto de seu pai, ao mesmo tempo, aparentemente não
há nada de muito notável no filme-dentro-do-filme. Se O Agente Secreto resgata uma nostalgia da Nova Holywood do final
dos anos 1960, no filme de Guto Parente quem ressurge é o cinema B. A ficção
científica interna à narrativa parece ser quase um pastiche de um filme de
Roger Corman.
Se os últimos filmes de Parente
promoviam um forte diálogo com o cinema de gênero, como o terror gore em O Clube dos Canibais (ver aqui) e a ambiência fantástica em Estranho Caminho, Morte e vida Madalena parece ser um delicioso entremeio na
filmografia desse realizador cearense, que retoma certos elementos das origens de
sua trajetória.
Devemos lembrar que Guto surgiu
no Alumbramento, um coletivo do cinema cearense que estimulava as imbricações entre
criação e vida (ver aqui). Vejo um diálogo desse filme com Inferninho (ver aqui), mas, aqui, a comunidade gregária não se reúne em um bar,
e sim em um set de filmagens. São visões complementares, já que o cinema do
Alumbramento acontecia simultaneamente entre o set e o bar. Um momento ao final
do filme, em que o coletivo canta em um karaokê, evoca o clima típico do grupo.
É também interessante como membros da própria equipe aparecem no filme (Ivo Lopes
Araújo, Thaís de Campos), como se os bastidores fossem parte da própria
dramaturgia da obra.
Ano passado, neste mesmo Festival de Brasília, defendi Suçuarana como um gesto de prolongamento do cinema da Teia mesmo após sua dissolução, uma comprovação de um longo caminho de amadurecimento (ver aqui). Em outro texto, comentei sobre Inferninho, em relação ao Alumbramento (ver aqui). Já Morte e vida Madalena ressoa a experiência do coletivo mas não necessariamente num caminho de “amadurecimento profissional” em torno de suas tendências estilísticas. Talvez essa seja a aposta mais surpreendente de Guto Parente: a crença de que o cinema não precisa "amadurecer" — e talvez o amadurecimento seja justamente isso, olhar com ternura para nossas precariedades e encará-las de frente. Talvez isso seja impulsionado por um conjunto de transformações na trajetória da própria relação pessoal entre Guto Parente e Ticiana Augusto Lima, que o filme, de formas múltiplas e indiretas, estabelece. No fundo, não importa muito. Pois desde Estrada para Ythaca (aqui), ou mesmo bem antes, o cinema do Alumbramento já propunha uma estrutura ficcional em que atores não profissionais davam corpo a relações vividas no campo pessoal, mas transfiguradas por meio de um filme, e não como um sentido biográfico direto.
Em outros termos, ao mesmo tempo
em que Morte e vida Madalena ressoa a
experiência do Alumbramento, ele se distancia radicalmente da experiência de
filmes como Passos no silêncio ou Dizem que os cães veem coisas (aqui) – filmes
que buscavam “amadurecer”. A cearense Tardo Filmes possui muitas relações com a
pernambucana Desvia. Mas enquanto Mascaro foi para Berlim, Parente foi para o
FID Marseille. Não menciono isso para legitimar uma hierarquia entre festivais
como medida de sucesso, mas sim para sugerir as escolhas tomadas pelos
realizadores e por suas respectivas produtoras.
Morte e vida Madalena é uma chanchada, que, de forma bem humorada,
dialoga com as precariedades do nosso cinema artesanal. Mas uma chanchada sem Oscarito
nem Fábio Assunção, sem star system, com atores de diferentes estados do
Nordeste que também são realizadores (Noá, Curvelo, Tavinho, etc.). Um filme
mambembe, mas feito com recursos do FSA e do governo do Ceará, exibido num
festival internacional de prestígio. Um filme onde a experiência do cinema de
garagem e da afetividade – duas palavras-chave – continua a reverberar, mas
agora sem vaidade ou romantismo.
Ao final, surge Pocã. Se o filme
abre com um close do pai no caixão, ele se encerra com a filha – curiosamente
ambos na mesma sala de cinema. Não sabemos o que Guto precisou ou precisará
enterrar para prosseguir filmando ou vivendo. O cinema de garagem agoniza mas
não morre. Ficamos com Pocã – assim como uma antiga carta de despedida em outro
contexto foi dedicada a Zeno, agora já grande (ver aqui) – um plano que me lembra exatamente
do final de Com os punhos cerrados,
mas agora sem conotação política explícita (um filme Alumbramento sem Guto). A
tão falada relação entre cinema e vida é proposta de outra forma, reelaborada
por um cineasta já não mais tão jovem que, como ele próprio disse em sua apresentação,
“é um homem branco de cabelos brancos, que sempre quis ser engraçado mas nunca
conseguiu muito”. A aposta frontal por um tom mambembe, dada a filmografia de
Parente, é corajosa, pois projeta seus próprios fantasmas para dentro da
dramaturgia do filme, ao mesmo tempo que se mantém coerente com um projeto de
cinema que nos remete ao Alumbramento. Me lembro de um texto do Denílson Lopes
no livro Cinema de Garagem, intitulado Lições do fracasso. É como se o Guto
olhasse de frente para o vulto do fracasso e da morte e risse diante dele. A
suposta ingenuidade do filme é apenas aparente: em sua poética, Morte e vida Madalena é uma nota
dissonante no atual circuito do cinema brasileiro, em suas rodadas de negócio e
debates de regulação de seu protomercado. Esse definitivamente não é um filme
do “cinema da retomada”.
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