[FESTBRASÍLIA] PALCO CAMA
[COBERTURA DO 58º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO 2025]
de Jura Capela
Palco Cama documenta uma conversa com Zé
Celso Martinez Correa, um dos maiores nomes do teatro de invenção brasileiro. O
diretor Jura Capela transcende o formato clássico da entrevista, abrindo seu
formato para que Zé Celso se sinta confortável para falar. Para isso, Jura
escolheu estabelecer esse diálogo com Zé Celso não apenas em sua própria casa
ou em seu próprio quarto, mas em sua cama.
A
cama surge, portanto, não apenas como espaço de descanso ou repouso, como mera
instância íntima de retiro do espaço público, mas, ao contrário, como
disparador de uma “conversa performática”. A cama é onde se lê, é onde se ama,
é onde se dorme, é onde se vê e ouve os movimentos da cidade.
A
conversa no quarto do artista ganha um significado dramático, pois foi filmada no
mesmo espaço do trágico falecimento de Zé Celso, vítima de queimaduras
provocadas por um incêndio em seu apartamento em São Paulo. A causa mais
provável do incêndio, segundo as investigações, foi um aquecedor elétrico que
entrou em contato com materiais de fácil combustão no quarto.
O filme apresenta o pensamento
crítico do artista e seu processo de criação. É como se Palco Cama fosse uma grande aula-performática gravada para nosso
deleite, quase como "um filme de material bruto”, nas palavras do diretor.
O grande mérito do filme é como Jura encontra um dispositivo aparentemente
simples para deixar Zé Celso à vontade para falar. Jura, portanto, concentra-se
no essencial. A montagem de Rodrigo Lima também é fundamental para recoletar os
fragmentos dessa conversa.
Brilhante, a fala de Zé Celso
aponta para o lugar radical da arte como espaço de criação de pensamento
crítico e a liberdade do pensamento e especialmente do corpo para escapar dos
lugares-comuns institucionalizados. Para isso, em diversos momentos, Zé Celso
destaca o papel de Oswald de Andrade e sua antropofagia, e critica todos os
ismos repressores (do comunismo ao feminismo). Nos nossos tempos de leitura em
chave didática dos movimentos de subalternidade, Zé Celso prefere o “comum” ao
“comunismo”.
Ao mesmo tempo, Zé Celso
reafirma o corpo como um campo de experimentação contínua, capaz de subverter
projetos de vida padronizados. Essa capacidade ímpar de unir o pessoal e o
político, o sagrado e o profano, a vida e a arte em um discurso vivo e
transformador faz de Zé Celso um dos maiores artistas e pensadores
contemporâneos do Brasil. Sua obra e suas palavras continuam a influenciar e a
desafiar as noções tradicionais de teatro, arte e sociedade.

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