ASAS

 ASAS

(Wings, 1927)

William A. Wellmann

 


Nesta quarta-feira (15/04/2026), participei de uma sessão do curso “Para entender o Oscar”, ministrado pelos professores Wesley Pereira de Castro e Hamilcar Dantas na Universidade Federal de Sergipe. O projeto exibirá e debaterá todos os vencedores do Oscar de Melhor Filme, de 1927 aos dias atuais. Como as sessões são quinzenais e haverá interrupções por férias acadêmicas e feriados, a previsão é que o projeto dure ao menos três anos. Participei da primeira sessão, dedicada ao primeiro contemplado: Asas (1927), de William A. Wellman.

Nunca tinha assistido a esse filme de Wellman por pensar que se tratava de uma obra meramente patriótica e belicista sobre o militarismo norte-americano. Ledo engano! Ainda que o filme não deixe de ser sobre isso — uma espécie de veículo do imperialismo americano —, ele vai muito além de um mero institucional patriótico simplista.

O que me surpreendeu foi perceber como as bases morais, estéticas e políticas do blockbuster norte-americano já estavam lançadas nessa obra de quase cem anos atrás. Asas é atual na medida em que demonstra como, desde os primórdios, o cinema americano encontrou um modelo estético consistente para expressar uma visão de mundo e uma moral sobre os rumos da nação. Esse modelo ressoa até hoje, em maior ou menor grau, em filmes como Pearl Harbor (Michael Bay, 2001), Top Gun (Tony Scott, 1986; Joseph Kosinski, 2022) e O Resgate do Soldado Ryan (Steven Spielberg, 1998) — e até em obras que tencionam essa equação sem destruir seus termos, como O Aviador (Martin Scorsese, 2004) e Uma Batalha Após a Outra (Paul Thomas Anderson, 2025). Todos são, em algum nível, herdeiros do projeto estético-político de Asas.

O filme é o precursor do blockbuster: uma obra de entretenimento de grande orçamento, com excelência técnica e voltada ao consumo de massa. O primeiro ponto de atração é a inovação das cenas de ação, especialmente as perseguições aéreas. Seria preciso um estudo à parte para comparar o realismo e a decupagem das cenas de Asas com as de Top Gun: Maverick, realizados com um intervalo de 95 anos. A bravura e a coragem dos jovens pilotos são demonstradas em sequências de enorme vigor cinematográfico e desafios técnicos. Cenas de guerra com centenas de figurantes, bombardeios e tanques complementam o panorama realista do combate nas trincheiras, agora rente ao solo.

No entanto, os méritos de Asas devem ser percebido para muito além da bravura do artesanato das sequências de guerra. Mas sim por como esse projeto de pirotecnia técnica é aderente ao projeto ideológico do filme. A obra também cativa pelo lado emocional, apresentando um triângulo amoroso: Jack (Charles Rogers) é um jovem inventor independente que criou um veículo motorizado apelidado de "Estrela Cadente"; David (Richard Arlen) é o filho educado de uma família de posses. Ambos disputam a mesma mulher. Inicialmente rivais, acabam tornando-se amigos inseparáveis ao se alistarem no esforço de guerra.

A primeira meia hora do filme é fantástica, e mostra a sabedoria de Wellman ao criar personagens e situações bem definidas e cativar o coração do público. Com essa estratégia, Wellman pode humanizar a guerra. O contexto político, as ações estratégicas acabam ficando em segundo plano em relação ao impacto emocional do melodrama que envolve a narrativa. Desse modo, Asas pode agradar ao estereótipo dos públicos masculino e feminino, e equilibra brilhantemente a ação das cenas de batalha com o lado emocional das cenas de melodrama. A habilidade de Wellman em compor climas muito diferentes para as duas partes do filme é brilhante. Asas dura mais de 2h30 mas é um filme fluido, cativante, cujo ritmo e desenvolvimento narrativo resistem mesmo se o assistirmos 100 anos depois: e isso é muito notável.

Mas, para além da camada de melodrama, esse triângulo denota um projeto político de nação. Os dois jovens representam lados diferentes na composição da sociedade americana: Jack é o capitalismo industrial empreendedorista nascente, representando pelas máquinas, enquanto David é o retrato da oligarquia do latifúndio rural, já em decadência. Ambos entram em disputa pela mulher Sylvia, que poderia representar a própria nação norte-americana, mas precisam se aliar para enfrentar um inimigo externo (os alemães).

O primeiro plano do filme mostra a sabedoria de Wellman: Jack está deitado de bruços, voltado para o solo. Ele então se vira e passa a admirar o céu. Da terra aos céus: esse gesto é o símbolo de uma nação americana no período entre guerras, que deixa a trumática Guerra de Secessão, e se volta a um projeto de construção da nação americana por meio do capitalismo industrial.

Os aviões representam o futuro; a nação precisa de jovens corajosos para domar as máquinas e derrotar os inimigos. Esse romance de formação — a passagem da juventude para a vida adulta — espelha a própria transformação da sociedade norte-americana rumo ao século XX. É fundamental perceber que, se as máquinas representam o futuro, o cinema também integra esse sistema industrial. As câmeras acompanham os aviões em manobras aéreas, fundindo tecnologia bélica e técnica cinematográfica.

Não é à toa que, após a batalha, Jack retorna para casa de trem e é recebido com euforia. A cena da chegada do trem à estação evoca o cinema dos Lumière, reforçando que a sétima arte é parte indissociável da construção da "vida moderna". Desse modo, Asas destaca-se por expressar como o cinema norte-americano encontrou um código ético-moral (afastando-se de acusações de depravação e antecipando o rigor do Código Hays) e um modelo estético-narrativo para traduzir uma ideologia política.

Em suma, o filme demonstra como as formas do cinema podem expressar um projeto específico de nação que, em maior ou menor grau, vigora até hoje: um imperialismo belicista que traduz os desejos de uma burguesia industrial empenhada em soterrar a antiga oligarquia rural, permitindo que os EUA alcancem um novo patamar de desenvolvimento global.

Nesse sentido, a resolução do roteiro é corajosa: Jack, ainda que acidentalmente, acaba matando David. É a afirmação de que Jack, o pequeno burguês empreendedor e industrial, será o grande vencedor da guerra, enquanto o latifúndio rural decadente precisa ser enterrado. No entanto, Wellman é cuidadoso: não se trata de colocar Jack como vilão ou mercenário, uma vez que não são lados inimigos. David é transfigurado em mártir e enterrado com honras de herói; cabe a Jack entregar à família os pertences do amigo e sua medalha de condecoração, em uma das cenas mais tocantes de todo o filme. A mensagem moral de Asas chega a ser até mesmo didática: os EUA precisam se reconstruir sobre novas bases, superando o modelo do latifúndio rural.

Quando Jack presencia os últimos suspiros de David, há uma cena curiosa: Wellman encena essa despedida de forma romântica, praticamente aos moldes de um bromance. No fim, os dois chegam a se beijar. Cem anos depois, essa cena salta aos olhos ao selar uma amizade homoafetiva em meio ao cenário da guerra, aos moldes de um romance tradicional.





Para que o espectador embarque na mensagem moral, é preciso mais que cenas de ação, mas um roteiro com personagens cativantes e conflitos claros. E nisso Wellman é mestre. Logo após o intermission, cabe destaque uma longa cena passada em Paris durante a folga dos recrutas, especialmente um desbunde no lendário bar Folies Bergère. É um momento de respiro do espectador diante das cenas de batalha, e um respiro também para Wellman que pode exercitar seu lado amoral e sensual, em uma sequência deslumbrante. A câmera passando em travelling por entre as mesas com casais e o delírio do jovem bêbado que vê bolhas de champanhe em todos os objetos que se movem refletem a poética do cinema de Wellman. Para o jovem menino que se vê subitamente um veterano de guerra, tudo o que o seduz vira bolhas rumo ao céu e que se dissipam. Inclusive as mulheres. Em tudo o aviador vê o ar. E tudo o que é sólido se desmancha no ar. Nesses breves momentos, vemos que Wellman, muitas vezes visto como mero artesão, é um grande realizador. Asas é um grande fime, um tratado ambicioso sobre os desafios da nação americana no entreguerras, realizado a partir dos moldes de um grande espetáculo popular. É surpreendente como as bases de Asas sobrevivem até hoje, quase 100 anos após sua realização.




 p.s.1: é chocante a cena em que o avião pilotado por David finalmente cai e destroça a casa que representa o latifúndio rural.

Num contracampo, vemos o vencedor do duelo: a burguesia industrial pousa confortavelmente sobre um solo repleto de mortes, um verdadeiro cemitério.

Uma dura leitura de Wellman sobre o preço pago por essa batalha de reconstrução americana.


 

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