[FESTBRASILIA] SAFO
[COBERTURA DO 58º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO 2025]
SAFO
de Rosana Urbes
Em seu premiado curta anterior (Guida, 2015), Rosana Urbes explorou o
cotidiano de uma anônima funcionária de um escritório que encontra na arte uma
forma de subversão de sua rotina decrépita. Agora, Safo (2025) toma como ponto de partida a trajetória não de uma
anônima mas de uma artista: a poeta Safo de Lesbos.
No entanto, pouco se sabe sobre
a vida e a obra de Safo, cuja poesia chegou até nós apenas por meio de
fragmentos, recoletados por terceiros. A partir dessas ruínas, Urbes costura as
teias que nos permitem vislumbrar rastros da presença da poeta no mundo. A
ideia da costura à mão realça o caráter artesanal da empreitada: entre grafite
e aquarela, Urbes traça esses vestígios com um estilo esfumaçado e hipnótico
que nos remete até aos primeiros filmes de Peter Greenaway: um caleidoscópio
visual que se desmancha e se refaz diante de nossos olhos, voltadas a um prazer
visual, ao despertar de uma atmosfera de sensações do espectador.
As camadas de imagens que se
desfolham são, em geral, de três fontes. A primeira, composta por desenhos de
Urbes em torno de possíveis representações de Safo assemelham-se a estudos de
corpos em movimento da Grécia antiga. Mas não os corpos atléticos de harmonia
simétrica, e sim algo mais próximo à representação das ninfas – esses
misteriosos seres femininos que personificavam elementos da natureza
relacionados à fertilidade. As ninfas eram espíritos da natureza, que mesclavam
aspectos divinos e humanos, sedutoras e belas, que despertavam paixões e também
atuavam como curandeiras, transitando entre o imaginário de bruxas e
curandeiras na genealogia dos deuses da Grécia antiga.
A segunda camada refere-se à
presença da natureza, por meio de folhas, frutas, galhos e outros objetos que
circundam o enquadramento. Nesse sentido, Safo se aproxima de Mothlight (1963), lendária obra de Stan
Brakhage que incorpora asas de mariposa à película. Em terceiro lugar, surgem
cadernos com anotações e desenhos da própria artista, como se incorporassem ao
filme rastros do próprio processo criativo, uma espécie de making off do
próprio filme incorporado à tela.
Essas três camadas não aparecem
de forma sucessiva ou linear, como se fossem em blocos consecutivos, mas são
sobrepostas no interior do próprio plano. Assim, o filme se compõe como uma
espécie de palimpsesto, termo que remete não apenas à tradição de uma escrita
artesanal, anterior aos processos industriais (como a prensa móvel de
Gutemberg) mas que nos faz vislumbrar as ruínas de uma obra que emerge sob a
influência de outra. A herança de Safo, essa artista que sobrevive até nós por
vias indiretas, emerge como resultante desse palimpsesto pessoal e difuso. A
obra de arte surge, portanto, a partir de um complexo processo de fusão de
culturas e temporalidades, e não por uma influência direta e linear, muito
menos por um desejo de biografia totalizante.
Sem “ilusão biográfica” ou
manifesto totalizante, Urbes não busca recriar a vida ou mesmo a obra de Safo.
Sua existência funciona como um ponto de partida que aciona ou desperta
sensações em torno de um imaginário de um corpo e alma femininos. Também por
meio de fragmentos, o curta de Urbes proporciona um mergulho em uma atmosfera
lírica de sensações cinestésicas. Ainda que a voz da narradora (a própria
Urbes) nos ajude a reunir alguns dos fios dessa teia numa certa relação de
ancoragem, a obra não está especialmente concentrada nas informações mas em um convite
para o espectador “bailar” com essa ninfa misteriosa. Os fragmentos se sobrepõem
de uma forma livre e nada esquemática, como um verdadeiro estudo sobre o
movimento. A montagem rítmica (entre os planos e nas camadas no interior de
cada plano) nos convida a bailar pelo filme, despertando nossos sentidos. Muitas
vezes ficamos atordoados ou perdidos com o excesso de sensações que se
sobrepõem, uma espécie de vertigem ou transe hipnótico que nos faz sentir como
se estivéssemos ingressando em uma floresta e desfolhando suas camadas
interiores.
Através de Safo, Urbes expõe seu
próprio processo de criação, como as páginas de um caderno cuja escrita vai se
fazendo à medida do percurso do filme, em uma relação umbilical entre criação e
vida. A vida e obra de Safo se entrecruzam de formas múltiplas e sugestivas com
o próprio percurso de trabalho da realizadora, como um amálgama/palimpsesto. O
que irrompe do desfolhar dos fragmentos da obra de Safo nos dias de hoje é
aquilo que se pode vislumbrar do próprio processo do filme-vida em curso,
exposto como carne viva, bailando em torno de nós.
Nesses tempos em que a animação
é cada vez mais incorporada aos processos industriais, e que contornos como a
CGI e a IA tornam os processos semiautomáticos, a aposta radical de Urbes numa
caligrafia artesanal, em torno de um longo processo que durou mais de seis
anos, transforma Safo em uma reflexão sobre os rumos do mundo contemporâneo.
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