[FESTBRASILIA] NOSFERATU
[COBERTURA DO 58º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO 2025]
NOSFERATU
de Cristiano Burlan
A
multifacetada filmografia desse prolífico realizador ganha um novo capítulo com
Nosferatu. Com uma trajetória de mais
de quinze longas-metragens (perdi a conta rs), Cristiano Burlan é uma
referência nos caminhos do cinema verdadeiramente independente brasileiro. Se
de um lado Burlan é conhecido por documentários em que examina, em primeira
pessoa, trágicos incidentes de sua vida pessoal, como no icônico Mataram meu irmão (2013), de outro,
Burlan possui um conjunto de obras de ficção que expandem os caminhos entre a
literatura, o teatro e o cinema.
Assim,
depois de Hamlet (2014) e de Ulisses (2024), Burlan prossegue
adaptando um clássico da literatura mundial, agora a obra de Bram Stoker. Na
verdade, em vez de utilizar a palavra “adaptação”, melhor seria pensar na obra
como um ponto de partida para a investigação de um universo poético. Há algo em
comum nesses três títulos: os nomes condensam a trajetória existencial de um
personagem masculino. Talvez esse seja o grande mote desses filmes: investigar
os dilemas individuais desses personagens partidos, divididos entre a vida e a
morte. Pois a morte e o luto continuam sendo os grandes temas da obra de
Burlan.
Mas em Nosferatu essa pesquisa cinematográfica me parece ter alcançado um
mais alto grau de amadurecimento, o que comprova uma trajetória artística em
plena maturidade. Burlan não está preocupado em traçar uma biografia de
Nosferatu, muito menos uma narrativa linear. Seu cinema está mais próximo do
cinema de poesia do que de prosa. Por meio de fragmentos de cenas, mergulhamos
na trajetória de um personagem que parece flanar por uma espécie de purgatório,
entre o mundo dos vivos e o reino dos mortos. Nosferatu muitas vezes se parece
com um sonho. Ou com um delírio.
E nesse abandono da geografia
realista para um mergulho numa realidade psíquica interior retorcida, Nosferatu
permanece fiel à sua influência expressionista, ainda que por vias heterodoxas.
Afinal, o Nosferatu de Burlan é uma leitura livre, ainda mais pelo fato de o
filme utilizar as referências de ícone-pop para deslocá-las para outro lugar.
Esse é outro dos gestos do filme: ressignificar essa figura pop e sua adesão a
um cinema de gênero mainstream e os códigos do terror para, a partir dele,
deslocá-las de sua função-mercado para aproximá-las de suas próprias
referências pessoais. Por isso, é bastante pertinente que o filme cite, até
literalmente, Nosferato no Brasil
(1971), o primeiro filme de Ivan Cardoso com ninguém menos que Torquato Neto no
elenco.
Esse mergulho existencial em um
personagem atormantado pelos seus fantasmas existenciais é permeado por um
cinema atmosférico, reforçado pelo uso criativo da fotografia preto-e-branco, e
ao mesmo tempo por um forte desejo de se contaminar com as impurezas da vida –
o instante, o precário, o provisório. Burlan constroi uma espécie de Nosferatu
punk da cena underground de São Paulo, inclusive com a participação da icônica
banda punk cearense Jonnata Doll e os garotos solventes.
Por outro lado, o filme
apresenta uma pesquisa interetextual, incorporando elementos da literatura, do
teatro e do próprio cinema. O texto é um elemento ativo do filme, em que muitas
vezes os personagens recitam trechos, não apenas de Bram Stoker, mas de outros
artistas. Em outro momento, frases de Antonioni e Bresson surgem como
comentário sobre as próprias opções de mise en scène. Sinto que a atuação de
Burlan como professor de cursos de direção de atores ressoa nessa experiência
particular. Nosferatu delibradamente
opta por uma mise en scène teatral
para reforçar a artificialidade (ou o não realismo estrito) da caminhada de seu
personagem: atrizes recitando para a câmera longos monólogos se imbricam com
momentos poéticos de experimentação, por exemplo, quando uma delas canta para a
câmera.
Por fim, Nosferatu é o filme que talvez mais se aproxime da alma desse
boêmio paulistano que, vindo da periferia, fez questão de optar por um cinema
sofisticado ainda que radicalmente independente. Nosferatu é como Burlan que,
emergido do reino dos mortos, prossegue transitando pela cena boêmia
underground da cidade, vivendo, criando, refletindo sobre arte, sofrendo,
amando. Um desfile de luzes e sombras pelo imaginário de um personagem
atormentado mas fascinado pela vida. A impureza e o instante fugidio, no
entanto, no cinema de Burlan, ganham uma forma cinematográfica rigorosa (uma
busca por um rigor próprio: ele é rigoroso nos seus próprios termos). Nosferatu é um filme pouco palpável,
como a vida, como o palco de um teatro. Nosferatu
é sobretudo uma flanância pelo imaginário de um poeta em seu processo de vida-criação.

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