[FESTBRASÍLIA] NIMUENDAJÚ
[COBERTURA DO 58º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO 2025]
NIMUENDAJÚ
de Tania Anaya
Depois
de sua estreia no prestigioso Festival de Annecy e depois de um longo processo
de realização que durou mais de 10 anos, finalmente o aguardado primeiro
longa-metragem de Tania Anaya tem sua primeira exibição no Brasil na Mostra
Caleidoscópio do Festival de Cinema de Brasília.
Seu
filme é uma biografia do etnógrafo de origem alemã Curt Unckel, nomeado como
Nimuendajú, considerado o maior especialista em povos indígenas da primeira
metade do século XX, e sua contribuição seja na pesquisa sobre as identidades
indígenas seja no processo de luta da sobrevivência dessas nações diante da
cobiça dos fazendeiros brancos locais. Entre suas principais conrtibuições,
está na elaboração do mapa etno-histórico, elaborado artesanalmente, que,
segundo o IPHAN, é “uma síntese definitiva de uma vida inteira dedicada ao
estudo das línguas e culturas indígenas”. O mapa foi um instrumento fundamental
para a demarcação dos territórios indígenas, protegendo-os da invasão dos
fazendeiros locais.
Anaya
optou por uma animação em estilo artesanal, o que consumiu sucessivas
prorrogações no cronograma devido a questões orçamentárias e um longo tempo de
maturação desse projeto. O filme é fruto de exaustivo processo de pesquisa, com
visitas e filmagens nas comunidades indígenas locais, que posteriormente foram
retrabalhadas por meio de um estilo de animação artesanal. A base (quadros
inicial e final) foi construída a partir da rotoscopia em cima do material
filmado, e os entremeios (8 quadros por segundo) foram criados a partir de
animação 2D. No debate, Anaya se revelou influenciada pelo traço de Egon Schiele,
cujo estilo cria uma relação de contraste entre figura e fundo para reforçar a
fragmentação e a expressividade das personagens retratadas. É nítido o cuidado
e a delicadeza da diretora e de toda a equipe de realização em torno da questão
da salvaguarda dos povos originários brasileiros e sua relação com um processo
histórico de sucessivas tentativas de aniquilamento em nome da ganância e da
ignorância.
Por outro lado, o estilo de
biografia escolhido privilegia uma visão clássica da história, com uma
organização a partir da cronologia linear, num formato narrativo clássico,
inclusive com narração em voz over, calcado em informações. O filme cresce nos
instantes em que a poética contamina o filme, como nas transições de respiro em
vermelho, ou nos momentos em que mergulha nas culturas indígenas e na vivência
com as comunidades.
É curiosa a opção da diretora
por um olhar externo europeu. Novamente vemos essa história contada a partir do
ponto de vista do branco colonizador simpático às causas indígenas, mas apresentando-o
sem grandes paradoxos ou questionamentos. Questões complexas, como seus vários
casamentos com mulheres indígenas locais ou a fundação de museus com artefatos
indígenas na Europa são apresentados sem maiores questionamentos éticos. Apesar
de bela e bem-intencionada, a narrativa criada por Anaya para apresentar seu
heroi branco retira dos povos indígenas a autonomia de seus processos de luta e
sobrevivência e transfere para um “salvador branco europeu” sua supremacia.
Acaba se revelando uma visão anacrônica da história seja em termos da
construção de sua narrativa histórica (o que Pierre Bourdieu chamava de “ilusão
biográfica” em torno de uma proposta totalizante, unificada e coerente, que
ignora as compexidades das estruturas sociais que afetam os fatos sociais) seja
em termos de seu olhar para o próprio processo de lutas da construção de uma
identidade nacional. As comunidades indígenas surgem no filme como meros
objetos do olhar branco externo, sem que estejam diretamente engajadas em seus
processos de luta emancipatória. Nesse sentindo, o filme possui não apenas uma
visão de história tradicional mas uma visão sobre a antropologia e sobre a
etnografia extremamente conservadoras. Uma possível contra-argumentação seria a
de que o filme apenas documenta processos históricos do início do século XX,
baseando-se na premissa de que "no passado era assim". No entanto, é
importante notar que o filme não se limita a registrar; ele reforça essas
construções. Em vez de propor uma problematização crítica, a narrativa clássica
e linear do filme as ratifica. Desse modo, mesmo que bem-intencionado e
delicado, o filme infelizmente se revela ao final não apenas didático e clássico
mas profundamente moralizante e conservador, pois acaba reafirmando (perpetuando,
legitimando) a perspectiva colonizadora.

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