O PROFETA

[COBERTURA DO 15o. OLHAR DE CINEMA 2026]

O PROFETA

(O profeta, 2026)

de Ique Langa



Exibido no Festival de Rotterdam e concorrente ao prestigiado Tiger Award, este longa-metragem moçambicano surge como uma valiosa oportunidade de expandir nosso contato com o cinema africano, ainda que sob uma tônica distinta da usual. O diretor Ique Langa levou quase uma década para tirar o projeto do papel, rodando-o com atores não profissionais em um pequeno vilarejo ao sul de Moçambique - escolhas que ecoam diretamente os preceitos do neorrealismo.

No entanto, a estética de O Profeta se aproxima muito mais do cinema transcendental de Carl Theodor Dreyer e Robert Bresson do que do teor político neorrealista. A trama acompanha a crise interior de um pastor que, embora exerça o papel de líder espiritual em sua comunidade, sofre um profundo abalo íntimo. Trata-se, portanto, de uma obra sobre a fé e a incomunicabilidade com o divino; sobre como a felicidade e o equilíbrio, por motivos quase imperceptíveis, podem subitamente ruir.

Langa conduz a narrativa com rigor formal: adota uma fotografia em preto e branco, com um enquadramento quadrado de formato 4:3 e em planos-sequência de longa duração. Um deles chama especial atenção pela crueza: o momento em que o pastor veste sua roupa e sai de casa, em uma lenta tomada contínua de quase cinco minutos.

Essa austeridade evoca de imediato uma espécie de Diário de um Pároco de Aldeia em solo moçambicano.

É instigante notar como o cineasta evita referências explícitas a uma religiosidade africana de matriz iorubá. O protagonista alinha-se a referências estritamente cristãs, operando como um pastor evangélico de uma pequena congregação. Essa opção pelo minimalismo afasta a produção do estigma de "vitrine exótica", rejeitando o uso fácil de cores vibrantes, adereços e folclorismos. A aposta aqui é a contenção.

Contudo, há um descompasso incômodo entre a intenção e a realização. O filme não parece se resolver por completo; o aceno ao sagrado soa solene em demasia, mas a linguagem visual carece da força necessária para materializar o inefável ou fazer com que os vazios ressoem de forma expressiva. Como longa de estreia, a obra carrega os tateamentos de um diretor ainda em busca de voz própria, carecendo de uma personalidade mais marcante. De todo modo, O Profeta é um exercício minimalista corajoso e dotado de inegável beleza acadêmica, cujos fragmentos poéticos, embora desconjuntados, revelam um promissor talento em construção.


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