CARTAS PARA MEUS PAIS MORTOS
[COBERTURA DO 15o. OLHAR DE CINEMA 2026]
CARTAS A MEUS PAIS MORTOS
(Cartas a mis padres muertos, 2025)
de Ignacio Aguero
O veterano cineasta chileno Ignacio Agüero apresenta, em seu último trabalho, um documentário singelo cuja maior virtude está em sintonizar o íntimo e pessoal com o coletivo e político.
A dimensão íntima se expressa por meio de um "cinema de garagem" em primeira pessoa. Com uma câmera caseira, de textura quase amadora, o realizador filma a residência de seus pais: capta os vazios, os movimentos sutis da natureza e, especialmente, a presença de gatos que conferem uma dinâmica particular ao espaço. O início do longa-metragem se desenvolve de forma contemplativa, detendo-se na rotina dessa casa agora desabitada e nas reflexões confessionais do cineasta.
Agüero não tem pressa. Nesse sentido, esta obra é a que mais se aproxima do gesto de José Luis Guerín visto neste festival. Ambos os filmes são exemplares por remarem contra a maré da eficiência mercadológica e dos manuais que ditam a produtividade da montagem contemporânea. O diretor chileno dedica um tempo generoso para que seus pensamentos possam escorrer pela tela, permitindo que a narrativa respire. Essa escolha se estende aos recursos sonoros, marcados pela ausência de música e por longos intervalos de um silêncio quase total.
Esses momentos confessionais são tensionados por uma densa reflexão sobre a história política do Chile e os impactos da ditadura de Pinochet. O estopim para esse debate surge em uma longa entrevista com um senhor idoso, antigo amigo de seu pai, que resgata a memória das lutas operárias e a resistência grevista contra o patronato. Agüero abre espaço para a palavra do entrevistado, deixando-o falar com toda a sua sabedoria em um plano frontal e estático. Não há aqui qualquer vaidade em impressionar o espectador por meio de pirotecnias visuais.
A simplicidade e o minimalismo de Agüero traduzem a maturidade de seu olhar. O filme transborda um certo desencanto melancólico, reverberando um passado de insurgências que hoje parece adormecido. No entanto, há também frestas de humor e uma poesia que brota do banal - expressa de forma precisa na cartela de “Fim”, que surge quase como uma ironia ao grand finale dramático que a narrativa se recusa a entregar.
Ao consolidar este documentário em primeira pessoa, Agüero realiza mais um grande gesto político. Sem a urgência de inovar a qualquer custo ou a necessidade de ostentar virtuosismo, ele constrói uma obra de enorme sabedoria sobre os laços invisíveis que unem o passado, a casa e a memória.
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