CORAÇÕES DESERTOS

[COBERTURA DO 15o. OLHAR DE CINEMA 2026] 

CORAÇÕES DESERTOS

(Desert hearts, 1986)

de Donna Deitch



É difícil dizer ao certo por que nos apaixonamos por certos filmes, mesmo aparentemente um tanto diferentes de nós mesmos.

Acho que é a mesma coisa de nos apaixonar por alguém: simplesmente acontece!

Não nos apaixonamos por alguém pela coerência entre suas intenções e sua estrutura.

Mas podemos fazê-lo pelo jeito como aquela pessoa mexe os cabelos ou gira o pescoço.


Esse filme realmente formidável foi me conquistando sem que eu percebesse muito bem.

Me interesso por esse filme por como ele consegue construir um sentimento em torno de uma comunidade.

E como as opções de encenação giram em torno desse conflito entre afeto e desejo.


Às vezes nos apaixonamos pelos filmes ou pelas pessoas por pequenos momentos em que tudo parece suspenso.

O primeiro plano, em que o trem para, e a protagonista desce do trem e arruma suas malas, já é quase o suficiente para que nos apaixonemos por esse filme.

Esse plano será retomado ao final de uma outra forma.


Eu também sou apaixonado por esse filme pela forma como as transições são feitas, especialmente os cortes em cortina e os fades out.

Para nos apaixonarmos por alguém, essa pessoa não precisa ser perfeita. Ele precisa simplesmente pulsar e ressoar dentro de nós.


No Olhar de Cinema deste ano, há uma animação chamada Bouchra, em que duas personagens se beijam e vemos a saliva entre suas bocas. Comentei com o Bruno Carmelo que um filme como esse seria impossível hoje em dia em live action, a não ser que as atrizes assinassem um termo contratual prévio autorizando essa opção, e que a baba fosse cenográfica.

Não sabia eu que no dia seguinte eu veria este Corações desertos, em que acontece exatamente isso: um beijo com saliva. Claro, um filme de 1986.

Uma belíssima cena de sexo entre essas duas mulheres.

Essa sequência é toda muito bela. Há um plano belíssimo em que a protagonista não sabe o que fazer: a câmera se move para a direita e Cay está na cama semidespida. Uma aula de uso do extracampo.


Não é preciso ser uma garota lésbica para gostar de Corações Desertos.

Só é preciso ter um pouco de liberdade na alma.

Não se fazem mais filmes como esse.






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