HIGH SCHOOL

 [COBERTURA DO 15o. OLHAR DE CINEMA 2026]

HIGH SCHOOL

(High school, 1968)

de Frederick Wiseman




A obra do documentarista Frederick Wiseman é uma análise cirúrgica das contradições que moldam as instituições norte-americanas. High School, filmado entre março e abril de 1968, debruça-se sobre o cotidiano da Northeast High School, uma escola pública na Filadélfia.

Embora o longa-metragem se concentre na rotina sufocante daquela comunidade e quase não mencione eventos externos, ele foi rodado exatamente no olho do furacão da história ocidental  - no auge da Guerra do Vietnã e poucas semanas antes do assassinato de Martin Luther King Jr. A tensão geopolítica da época manifesta-se de forma devastadora no desfecho, quando uma professora lê a carta de um ex-aluno enviado ao fronte asiático. Ao mesmo tempo, ao expor o choque geracional entre os jovens e os adultos que controlam o espaço, a obra ecoa a insatisfação institucional que culminaria no movimento estudantil de maio de 1968, na França.

Como exemplar típico do método de Wiseman e dos preceitos do cinema direto, não há narração, entrevistas ou intervenções visíveis da equipe de filmagem. O cineasta deixa que os fatos falem por si mesmos, revelando um sistema educacional rígido, muito mais preocupado com a disciplina, a obediência e a burocracia do que com o pensamento crítico. O ambiente escolar surge quase como um prolongamento da formação militar.

Assim, fica evidente que o objetivo final do diretor não é fazer uma denúncia localizada daquela escola específica, mas sim da instituição escolar em si: a sala de aula como um aparelho disciplinar que castra a liberdade do indivíduo, adestrando-o para funcionar nos moldes regimentais do “bom cidadão”. Como bem formulou Louis Althusser, a escola opera como um aparelho ideológico de Estado a serviço do aparato repressor.

Mais de cinquenta anos depois, é melancólico perceber que os pilares desse sistema continuam intactos. O documentário permanece profundamente atual, dialogando tanto com as políticas imperialistas do governo Trump quanto com os ataques contemporâneos à educação e à liberdade de cátedra que testemunhamos no governo anterior no Brasil.

Por fim, vale notar que uma obra com este nível de abertura dificilmente poderia ser realizada no cinema atual. Primeiro, porque os indivíduos hoje têm uma consciência muito mais aguçada sobre o uso da própria imagem, mantendo um constante autopoliciamento. Segundo, porque a produção dispararia debates complexos sobre a exposição de menores de idade em contextos de vulnerabilidade. No entanto, é justamente na dimensão ética que reside a maior contribuição social de Wiseman: para além da exposição individual de qualquer personagem, o que o filme propõe é o desnudamento de uma estrutura ideológica intrínseca e de suas contradições.




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