HISTÓRIAS DO VALE BOM
[COBERTURA DO 15o. OLHAR DE CINEMA 2026]
HISTÓRIAS DO VALE BOM
(Historias del buen valle, 2025)
de José Luis Guerín
Histórias do Vale Bom é um documentário sobre o bairro de Vallbona, nos arredores de Barcelona. Mas, para além de meramente registrar o local, o filme se debruça sobre os modos de ser de uma região muito particular, que funciona como um bolsão de resistência diante das lógicas hegemônicas do capitalismo contemporâneo. Se as cidades de hoje sofrem com projetos de desenvolvimento predatórios - que sufocam questões como moradia, transporte e segurança -, Guerín nos convida a habitar um território que parece ter "parado no tempo", preservando um forte vínculo comunitário. A política do filme reside justamente em nos fazer ver que é possível viver sob outros regimes, menos destrutivos em relação à natureza e à nossa própria humanidade.
Mas como dar a ver esses desafios nos contornos de um filme? Sabemos que a produção audiovisual contemporânea muitas vezes se integra à engrenagem das metrópoles globais, operando sob a lógica da "sociedade do espetáculo": estratégias desesperadas de marketing, laboratórios de roteiro padronizados e polêmicas vazias que transformam a cultura em mercadoria. O grande desafio de Guerín aqui é filmar Vallbona sem transformá-la em um produto exótico, imune ao efeito de "resortificação" das cidades atuais que buscam o ar fresco do campo como um mero passeio bucólico de fim de semana.
A resposta do diretor a esse impasse não é propriamente estética, mas ética: assumir o anacronismo de quem já não é mais jovem. Alinhado a mestres como Manoel de Oliveira e Clint Eastwood, Guerín filma com a sabedoria de um ancião que recusa a "ditadura da novidade" imposta pelo mercado da moda. Em vez de render-se ao fluxo veloz do consumo, ele faz de seu suposto atraso uma forma de resistência.
Por isso, seu olhar adere de forma tão coerente ao bairro retratado. Guerín rejeita a espetacularização. A aparente simplicidade daquelas pessoas - que não buscam luxos, extravagâncias ou dinâmicas de competitividade - encontra espelho na própria linguagem do realizador. Seu estilo é linear e despojado, mas revela um refinamento lapidado ao longo de décadas dedicadas a filmar comunidades isoladas e jogos de olhar, como visto em Innisfree (1990) e Na Cidade de Sylvia (2007).
A forma como Guerín decupa os pequenos encontros à beira do rio, articulando quem conversa e quem observa, revela sua maestria em capturar o tempo social dos personagens. São os momentos mais belos da obra: o cineasta intervém no espaço propondo pequenos dispositivos de encenação, mas deixa os corpos livres para performarem sua própria verdade diante da câmera. São estratégias sutis que nunca chamam a atenção para si como mero artifício, mas que potencializam a ideia de comunidade.
Todos esses elementos culminam em um desfecho de extrema delicadeza. O encontro informal dos moradores é interrompido pelo aviso de que a polícia se aproxima para multar quem se banha nas águas do rio. As pessoas correm recolhendo seus pertences. A recusa de Guerín em criar um suspense artificial à la Griffith (rejeitando a espetacularização da opressão policial), ou em adotar a estética de choque de um Carandiru, evoca imediatamente o final de Um Filme Falado, de Manoel de Oliveira. Ao fim, resta nas águas apenas uma boia - que também acaba resgatada.
A atenção às pessoas e ao tempo em que as ações e as interações se desenvolvem são a chave dessa ética. Aqueles que eventualmente acusarem a gramática do filme de convencional ou monótona talvez não tenham compreendido que o objetivo aqui não é o de ser "inovador". O convite deste mestre discreto é muito mais simples e estritamente político: mergulhar nas águas daquele rio, tomar um pouco de vinho e conviver com pessoas que não querem nada além da possibilidade de serem humanas.
Comentários