JOY BOY: UM TRIBUTO A JULIUS EASTMAN

[COBERTURA DO 15o. OLHAR DE CINEMA 2026]


JOY BOY: UM TRIBUTO A JULIUS EASTMAN

(Joy Boy: A Tribute to Julius Eastman, 2025)

do Coletivo Walking Backwards




Exibido no prestigioso Forum do Festival de Berlim, seção dedicada a filmes de linguagem experimental, Joy Boy é um filme realizado por um coletivo de artistas tendo como ponto de partida o legado de criação e resistência do músico negro Julius Eastman.

O filme é creditado ao Coletivo Walking Backwards (também ligado ao Coletivo Faire-Part), que conecta realizadores e performers da Bélgica, República Democrática do Congo e França. Assim, a obra opera como uma costura transnacional de resistências. O filme une o minimalismo político de um grande artista negligenciado da música vanguardista com a fúria e o afeto de corpos dissidentes contemporâneos.

O próprio conceito de "Walking Backwards" (caminhar para trás) serve como uma metáfora para o gesto de criação do coletivo: a ideia de que, para caminhar em direção ao futuro, precisamos olhar para trás e resgatar os passos, as memórias e os traumas daqueles que vieram antes de nós.

Julius Eastman foi um compositor, pianista e vocalista afro-americano que implodiu as fronteiras da música clássica e do minimalismo nos anos 1970 e 1980. Em uma época em que o minimalismo (de nomes como Steve Reich e Philip Glass) era visto como um espaço majoritariamente branco, acadêmico e "neutro", Eastman injetou urgência política, raça e homossexualidade em suas composições. Ele declarou em vida o desejo de ser "preto ao máximo, músico ao máximo, homossexual ao máximo", recusando qualquer tipo de assimilação burguesa.

O filme possui quatro partes, divididas em blocos autônomos separados por cartelas. Na primeira parte (Evil Nigger), imagens de um dançarino processadas digitalmente geram ondas de movimentos abstratos e linhas coloridas que ecoam na tela, dialogando com o conceito de “acumulação” de Eastman. Na segunda (Many Many Women), há uma dança visual de formas arredondadas e biotipos que dialogam com a bandeira da Palestina. A terceira (Gay Guerrilla) mostra um conjunto de bailarinos e performers negros dançando no meio da rua, entre os carros em Kinshasa, como uma forma de resistência de corpos dissidentes diante do espaço urbano. Por fim, a quarta (Joy Boy) é composta por imagens táteis de mãos sobre um corpo negro, mescladas com plantas e outros elementos botânicos.

Em sua opção abertamente pelo cinema experimental, Joy Boy é coerente com o gesto artístico radical de Eastman, e nos faz pensar em políticas da resistência. Em vez de fazer um documentário convencional em torno de uma "didática do trauma", o coletivo prefere usar a música de Eastman como um combustível vivo e atual, mostrando que sua obra continua gerando fricção e libertação no presente. Nenhuma informação ou entrevista circunscreve ou explica a obra de Eastman. Em vez disso, há uma proposta de prolongamento da potência criativa em um gesto contemporâneo, mostrando como a arte de um pioneiro ressoa e influencia o gesto criativo de uma nova geração de artistas dissidentes.

 


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