MFL: Letterway

Letterway, de Rachel Castro

Letterway, típico filme da videoartista Rachel Castro, poderia ser um poema dadaísta. Mas não o é: por trás da embaralhada seqüência de letras há um processo de construção, um jogo de ordem, acaso e, claro, a repetição. Por isso, não é contra o sentido no cinema: ao contrário, abre-o para outras camadas de significação. As palavras (ou melhor, a seqüência de letras) são vistas em seu aspecto físico, e não semântico: elas têm cor, forma, textura, direção. E, claro, como é um filme de Rachel Castro, têm movimento, fluxo, repetição. De trás para frente, de cima para baixo, da esquerda para direita, elas existem enquanto símbolos gráficos, elas têm liberdade para existir segundo suas formas físicas (“olha que letra gostosa!”, “olha como esse G precisa fazer uma dieta”, seriam comentários possíveis para essas letras). Isto é, elas têm liberdade de ser sem terem que ser algo, sem precisarem ter um sentido além de si mesmas. Num outro sentido, no entanto, devido à forma de apresentação dessas letras (quase como letreiros ou “anúncios de neon”), podem apontar para a futilidade e a sedução dos anúncios publicitários, que multiplicam as letras e esquartejam os sentidos. Mas vendo os outros trabalhos da artista, deve-se caminhar mais para o primeiro sentido: o do mergulho nos sentidos.

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