MFL: Arraiada

Inaugurando a Mostra do Filme Livre, aos poucos vou postando os textos que escrevi sobre os curtas da Mostra, já que devo ficar meio longe do circuito nessas duas semanas (com isso vou perder dois filmes italianos no Odeon que gostaria de ver...e ainda tem o ang lee, que eu gosto): acho legal tbem refletir sobre os curtas, muito pouco vistos, e que tem muita coisa bacana.
Começo, então, com um pequeno brinde para mim: um texto que me gerou um certo mal estar mas que agora está pronto. Foi escrito por ocasião do Curta Cinema, então fica o registro.

* * *

Ontem teve mais uma tradicional sessão dos lançamentos cariocas. Nessa sessão passou o Arraiada, primeiro curta de Henrique Rossi, projeto de realização da UFF. Henrique, vindo do interior de Taubaté para fazer cinema no Rio, conseguiu a exibição no Curta Cinema exclusivamente por méritos do seu trabalho, o que por si só já é um grande feito. Mas vamos ao filme.

Como avaliar um primeiro curta, um primeiro filme, um primeiro passo? Um primeiro curta – como bom primeiro curta – nunca é um processo acabado, mas o ponto de partida para um processo. Ou seja, é um início. E o que um início pode ser a não ser uma declaração de princípios, um projeto de estabelecimento de bases de pesquisa e de busca no cinema?

Diante de Arraiada, o público caiu em um sem-número de mal-entendidos. Para mim, que conheço a trajetória pessoal do realizador, tudo pareceu muito claro. Para Henrique, filho de uma típica família do interior de Taubaté que veio para o Rio fazer cinema, tudo em Arraiada parece um estranho cântico de desolação, um desabafo doloroso e profundamente pessoal sobre a possibilidade de se libertar de suas amarras e inclusive de fazer cinema.

Arraiada é um filme sobre o embrutecimento, ou ainda sobre um processo de enlouquecimento, ou sobre a animalização de um menino enclausurado pela rotina da cidade pequena. A beleza de Pedro Malta contrasta com a casa abandonada, com a olaria decadente. Arraiada é sobre uma inocência perdida. Tanto que começa com o diagnóstico de uma doença interior, misteriosa, surda. A amizade do menino e do cachorro vira pelo avesso o que poderia ser um filme infantil. Pensamos então no primeiro filme da sessão, o tacanho filme sobre capoeira, que traz o universo infantil para construir uma pedagogia didática e redutora. Em Arraiada, o universo da criança surge em sua complexidade, nesse diálogo íntimo entre o delírio e a novidade da realidade. O menino se vê perdido entre várias chaves que não lhe dão respostas satisfatórias: a ciência do médico e a religião dos terços. Nesse processo de enlouquecimento, o menino se confunde com esse cachorro. A busca por esse cachorro reflete a busca de um afeto perdido. Ainda que os pais se preocupem com o filho (a busca de um médico, a oração, o desespero com a ambulância), eles são impotentes para lhe dirigir uma palavra, para reverter uma situação perdida. Daí vem todo o tom trágico do filme: mesmo que amem seu filho, esses pais não conseguem reverter o processo de enlouquecimento, que cada vez mais se intensifica. O processo de animalização fala sobre uma infância perdida. Nisso, o mundo rural é dessacralizado. Antes do mundo bucólico de Humberto Mauro, há a melancolia de Menino de Engenho, ou ainda, o “exorcismo” de A Reunião dos Demônios (Os Três Zuretas), que logo associamos quando vimos o trabalho de Henrique. E diante dessa inocência perdida, surge o que parece ser o principal tema do filme: a perda de liberdade.

Em Arraiada, esses temas surgem como matéria bruta, ainda por ser moldada. Uma certa falta de ritmo, a dificuldade de fazer um raccord mostram uma dificuldade da direção em criar uma atmosfera para o filme. Ainda que Arraiada tenha sofrido das naturais dificuldades de realização típicas da falta de estrutura de um filme universitário (foi um filme da UFF filmado em Tremembé), deve-se dizer que é mais um filme de intenção do que de realização, o que não chega a ser grave em se tratando de um primeiro filme. O drama intenso do final, com uma exacerbação do trabalho de corpo e voz dos atores, quebra o clima de sugestão e de livre associação do início do curta. Ainda assim, o roteiro é o de menos: Arraiada é um projeto que resolve na imagem, no som (especialmente, com um expressivo trabalho de edição de som) e no corte suas intenções, mais do que no desenrolar dos acontecimentos. Ainda que não chegue a ser satisfatório, Arraiada aponta para a dificuldade de avaliação de um primeiro curta. Trabalho pessoal que nasceu para ser incompreendido, Arraiada é sem dúvida um primeiro passo. Seu mérito é não partir de um formato de curta-metragem já previamente estabelecido, mas mergulhar num processo de busca desigual. Ou seja, só se pode falar dos supostos méritos desse curta, assistindo ao próximo.

Comentários

marcia martins disse…
sou atriz e me amarrei nesse site. Parabéns. Beijos.

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