Valor Sentimental

Valor Sentimental

de Joachim Trier



Venho comentando recentemente que uma das formas mais seguras de um/a cineasta realizar um filme bem recebido é girar a trama em torno de uma relação de luto ou afastamento entre mãe e filho (ou pai e filha). É um tema que nos pega pelo fígado. Mesmo um filme mais apelativo como o cearense A Filha do Palhaço (2022), de Pedro Diógenes, acaba recebendo muitos elogios. Afinal, como ficarmos indiferentes a um tema tão sensível — especialmente para nós, latinos?

Para filmes assim, o trabalho do elenco é fundamental. Ficamos tão sensibilizados pela trama e pela entrega emocional dos atores que, quase anestesiados, não percebemos os mecanismos utilizados para suspender nossa atenção e nos fazer embarcar na experiência.

Valor Sentimental (2024) é um filme que poderia ser tranquilamente encaixado nessa espécie de categoria. É uma obra sóbria, segura e delicada sobre as dificuldades de relacionamento entre uma filha e um pai — e sobre como o tempo e as circunstâncias podem aparar as arestas ou ajudar a cicatrizar certas feridas.

Aqui vale ressaltar que esse não é um filme latino, mas nórdico (norueguês). Mesmo correndo o risco de cair em estereótipos sobre povos que são, no fundo, heterogêneos, talvez seja possível afirmar que esse "espírito nórdico" aparece na forma como o filme evita os recursos mais rasgados do melodrama. Há um certo "gelo", uma distância física e emocional entre os personagens. Por isso, um dos momentos mais fortes do filme é justamente quando as irmãs se abraçam deitadas na cama.

Também é possível dizer que esse é um filme nórdico, por dialogar com certos traços da cultura nórdica, numa tradição do intimismo psicológico de obras de câmara que abrangem desde as peças de Strindberg e de Ibsen até os filmes de Ingmar Bergman. Pela proximidade geográfica e temática, muitos logo compararam Valor Sentimental ao mestre sueco. Essa relação fica explícita quando, em certo momento, três rostos se fundem em uma versão digitalizada do icônico plano de Persona (1966).

O intimismo na arte nórdica é marcado por esse gesto de profunda introspecção: a angústia existencial, o isolamento e a valorização do silêncio e dos espaços domésticos como reflexos da psique. Nesse ponto, a casa é fundamental na narrativa. Ela é quase um personagem em torno do qual tudo orbita. A casa é lugar de disputa, território a ser ocupado e guardiã de memórias que pareciam soterradas. É também o palco íntimo onde as questões interiores dos personagens desabrocham diante da câmera.

Mas nessa dinâmica de ressentimentos e reconciliações, há um ponto adicional de interesse fundamental: a criação artística. O pai é diretor de cinema e a filha, atriz de teatro. O filme começa nos bastidores de um palco (o camarim, a coxia), com a filha tendo uma crise nervosa antes de entrar em cena. Já o desfecho (spoilers, desculpe KMF!) acontece nos bastidores de um set de filmagem.

Pai e filha não conseguem conversar sobre o que aconteceu entre eles. Para se reconciliarem, precisam fazer um filme juntos. Parece que a arte vira um instrumento de "terapia familiar" ou a única forma de sublimar as dores da vida real por meio da criação (??!!).

Ao mesmo tempo, a casa é vendida e passa por uma reforma "modernosa", tornando-se um lugar comum e perdendo seus traços particulares. Fiquei pensando que, sem a tal atriz famosa, o filme do pai talvez só tenha sido financiado com o dinheiro da venda da casa. É preciso soterrar a casa para que o filme nasça. Sob as ruínas das lembranças da casa, surge esse set-casa onde algo novo pode vir a brotar. Curiosamente, esse projeto tão pessoal só se torna possível quando deixa de acontecer no lar real para existir em um estúdio artificial.

No final, não temos mais a crise nervosa da atriz pré-cena, como na sequência inicial do filme, mas sim aquele esvaziamento que vem após o "corta". Quem é do meio sabe como esse momento pode ser uma espécie de depressão pós-parto para o ator/atriz. Fico pensando nesses campos-contracampos entre diretor/atriz, entre pai e filha, nos momentos após a filmagem, ainda no set. Me interesso por essa ambiguidade entre a intimidade e a distância desses olhares, mantidos a certa distância – um dos olhos no videoassist, outro na cena em si. Até que ponto o cinema e o tempo curam as cicatrizes, ou será que a distância permanece? Há algo sutil nesses campos-contracampos que o filme não responde totalmente, e que sugerem uma certa margem em relação ao discurso da plena reconciliação.

Por trás dessa estética realista típica da arte intimista nórdica, ficamos pensando nos rastros desse espelhamento entre cinema e vida. Podemos lembrar de Sonata de Outono (1978), de Bergman, onde uma pianista oprime a filha e o filme é um acerto de contas doméstico. Mas aqui em Trier a relação é mais ambígua: não é só a "vida que inspira a arte", mas o próprio processo artístico que provoca fissuras no curso da vida, borrando os limites.

Ao mesmo tempo, é claro que Valor Sentimental não é Benilde ou a Virgem Mãe (1975), de Manoel de Oliveira — que também começa com um plano-sequência pelas coxias, mas assume uma estrutura teatral radical, que nos leva a questionar se Benilde é uma santa real ou um mero pastiche de representação. Trier examina as ambiguidades da vida, mas sem abrir mão de um estilo transparente e de fácil identificação, o que torna o filme muito palatável para as plateias burguesas.

O cinema começou como arte popular e, cada vez mais, inclina-se para uma arte pequeno-burguesa, uma peça de ourivesaria para ser apreciada por quem segue recomendações de festivais  - e também de críticos (rs).

O próprio filme faz um comentário sobre as transformações da indústria de cinema e seu mercado. O diretor parece velho demais, não se encaixa nas entrevistas coletivas do padrão Netflix e precisa do apoio do star system para financiar seu projeto, mesmo que a atriz da moda, ainda que bem intencionada e até talentosa (?), não tenha o perfil ideal para o projeto.

Nesse aspecto, o filme é notável por resgatar uma tradição que parece anestesiada pelo mercado atual, que busca a espetacularização e o "choque" a qualquer custo para atrair as audiências. Até séries delicadas hoje em dia, como Adolescência (2024), precisam começar no estilo "tiro, porrada e bomba" para causar impacto. Já Valor Sentimental é um filme em tom menor. Ele não berra, mas busca um tom humanista para fazer o espectador conversar com suas próprias angústias.

Por outro lado, o que me incomoda em certo ponto é que tudo está muito bem aprumado em seu lugar – e fico me indagando o que isso de fato provoca no espectador, ou se no fundo, o filme não acaba por corroborar o lugar da arte pequeno-burguesa em seu intimismo de relicário. Ou seja, Valor sentimental não é um filme de Garrel ou de Pialat, em que os personagens (e a narrativa) se entregam plenamente ao seu universo interior, inclusive em seus erros e suas lacunas, em seu certo niilismo e desespero.

Terminei a sessão tocado pela delicadeza da obra, mas com a pulga atrás da orelha: histórias sobre luto e reconciliação entre pais e filhos são sempre um "prato cheio". A gente sempre torce pelo perdão, para que o ressentimento não destrua tudo. Mas até que ponto a reconciliação não é também uma forma de manter o status quo? Saí com essa dúvida, valorizando ainda mais filmes como os da última fase de Bresson ou o corajoso documentário brasileiro Os Dias com Ele (2013), de Maria Clara Escobar, que defendem que, às vezes, a reconciliação não é mais possível porque o sistema social e histórico provocou uma fissura, um curto-circuito, que nenhum intimismo de relicário bem intencionado consegue curar.

 

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