Mostra do Filme Livre

Mais uma Mostra do Filme Livre começa a partir de hoje no CCBB/RJ. Dessa vez, (graças a Deus) não teve dezenas de textos meus. Mas precisava escrever um texto sobre o trabalho de curadoria, do meu ponto de vista. Primeiro, não queria escrever as coisas de sempre, que o filme verdadeiramente livre é uma utopia, etc. Depois, pensei em fazer uma espécie de “manifesto”, de texto-irônico contra a futilidade, a superficialidade e a hipocrisia do “cinema alternativo carioca”, em como as pessoas no fundo querem poder e querem aparecer, da mesma forma que o mainstream. Mas desisti. Porque, apesar de todos os pesares, eu ainda acredito no espaço que a Mostra tem para ocupar e aposto como sua realização é muito mais séria que 90% dos Festivais brasileiros. Então, como sempre, escrevi um texto sobre mim, que mostra os desafios para frente que eu vislumbro, o mundo que eu desejo e preciso viver. Um texto supostamente livre sobre uma mostra supostamente livre.

 

 

Um filme livre

 

Ontem, por volta da hora do almoço, misteriosamente me lembrei de que na noite anterior eu havia tido um sonho. Sonhei com uma nuvem branca que se dissipava pelos céus, e que, quando eu já havia me esquecido dela, ela voltava a se recompor. Surgia, de novo, da mesma forma que antes, para subitamente desaparecer, e então novamente aparecer. E assim em diante, sucessivamente. Esse sonho era na verdade sobre o meu olhar. Essa nuvem, objeto do meu sonho, ou ainda, objeto do meu olhar enquanto sonho, na verdade nunca aparecia ou se dissipava por completo. Era o efeito da distância e do tempo entre a retina e o ponto de observação, um efeito da sucessão das camadas atmosféricas ou mero produto de miragem, dos contínuos tons de branco sobre o branco que enganam ou distraem os olhares. Entre essa nuvem e meu olho, havia, enfim, um abismo de coisas, um abismo perpétuo mas ao mesmo tempo indizível. Essa distância era a distância de um pensamento, de um passo, mas que na verdade era um passo na imensidão.

 

Nesse meu sonho não havia pedaços de concreto, não havia relatórios de gestão, não havia laptops nem contas de fim de mês. Não havia nada a não ser o meu olhar, a nuvem branca e a imensidão. Não havia nada a não ser o próprio sonho e a possibilidade de sonhar. Nada a não ser o meu próprio olhar, a não ser eu mesmo.

 

Quando me lembrei desse sonho comecei a chorar. As lágrimas inundaram os cômodos da casa, transbordaram até a rua e alagaram as cercanias. Até que elas chegaram até você. Você veio voando por sobre o rio das coisas e me trouxe um lenço, com o qual enxuguei minhas cicatrizes e tudo voltou ao normal. O sol despontou, as ruas secaram, os vizinhos se abraçaram e as pessoas até voltaram a sorrir. Então eu percebi que aquela nuvem branca era você, e não precisei mais sonhar. Pois a nuvem branca estava agora ao meu lado e, mesmo que ela se dissipasse, era preciso acreditar que subitamente ela voltaria a aparecer.

 

Foi nesse instante em que decidi que não queria mais morrer.

Comentários

Anônimo disse…
lindo!!!
perfeito para um catálogo da MFL.
fico pensando... acreditando...

ricardo
cristina disse…
Como ja havia lhe dito, adoro conhecer um lado seu que nao conhecia. Lindas palavras que me emocinaram muito Marcelo. E quero ver isso refletido nos seus próximos trabalhos...
um beijão

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