A Dama na Água

A Dama na Água

De M. Night Shyamalan

Unibanco Arteplex 2 qui 14 19:30

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O cinema de M. Night Shyamalan sempre me interessou, desde o impacto de O Sexto Sentido, mas cada vez mais fica claro que o diretor se encontra diante de uma encruzilhada. É o eterno dilema: o conflito entre realizar “um filme de M. Night Shyamalan” e ao mesmo tempo “falar pouco para muitas pessoas”, ou fazer um filme para as massas, influenciar um inconsciente coletivo. Os estereótipos em torno do qual a popularidade de Shyamalan foi criada com o grande público estão desgastados e precisam ser superados (o “filme de suspense”, o final surpreendente, etc.). Mas ao mesmo tempo que é isso o que torna a base de sua popularidade, é isso o que atualmente afasta Shyamalan do seu verdadeiro projeto de cinema: descortinar como a nação americana se vê diante de um processo místico e de reavaliação da fé. E como ao mesmo tempo diante disso os personagens errantes passam a redescobrir o valor da vida e descobrem sua verdadeira “missão”.

 

Essa obsessão em torno dos múltiplos sentidos do termo “missão” é que torna cada filme de Shyamalan uma ilha dentro do atual cinema americano e acima de tudo uma experiência emocionante. Mas o que torna este A Dama na Água um retrato dos conflitos do atual cinema de Shyamalan é exatamente esse descompasso (quase constrangedor) entre suas duas “missões”: fazer um cinema autoral e fazer um cinema para as massas. Nessa tentativa de um meio-termo, Shyamalan escorrega: A Dama na Água é ao mesmo tempo o filme de menor bilheteria do diretor desde O Sexto Sentido e o que teve a pior recepção crítica. Entre um e outro, nada consegue: ora pretensioso ora ingênuo (no mau sentido mesmo), acaba sendo quase um pastiche da filmografia de Shyamalan, e, tentando se atualizar, procura fazer um filme menos sério (o tom da comédia às vezes até escrachada) e com tempos menos largos que os anteriores. Quando procura ser metalinguístico, soa pretensioso  – o próprio Shyamalan atuando no papel de um missionário que irá mudar o mundo (oh!), ou ainda o patético crítico de literatura (seria de cinema?) que morre assassinado pela besta porque a vida não é como os paradigmas do texto. Quando procura fazer uma reavaliação dos contos de fadas, acaba sendo ingênuo no mau sentido (por exemplo, o uso da música e os diálogos didáticos).

 

Mas nos poucos momentos em que Shyamalan se entrega ao cinema de decupagem (em especial a asfixiante seqüência do “quase-rapto” da mulher-fada pelos lobos no jardim) e ao seu sentido de missão, A Dama na Água tem uma vida que nos lembra do projeto de Shyamalan. Outra coisa que me comove é a obsessão com que ele revisita os mesmos temas, e os paralelos com seus outros filmes são muito visíveis (a piscina como purificação de Corpo Fechado, a redescoberta da fé de Sinais, o face-a-face com o inimigo e a necessidade de superar o medo de A Vila, etc, etc). “É preciso ter fé que este mundo improvável das ninfas realmente exista.”

 

Mas em geral a impressão que fica do estranho A Dama na Água é de ser um filme de entressafra de Shyamalan, uma experiência em fazer um filme mais leve e de humor que acabou se revelando um pastiche de si mesmo. Sem ritmo, com um roteiro mal articulado e com a parte da artesania da linguagem (composição de planos e tempo) não tão sofisticada, o filme está longe de ser o típico retrato da filmografia do diretor. Para onde exatamente isso o levará é uma questão em aberto: resta-nos saber para que lado da moeda Shyamalan vai pender.

 

Comentários

Uma coisa que gostei: Acho que o roteiro, que vc diz ser mal articulado, é de uma languidez que de certa forma contribui para introduzir com uma certa naturalidade o clima de conto de fadas, o fantástico, naquele prédio. Pena que os atores, salvo Giamatti, não consigam vender o peixe-rocambole. É verdade que tem muitas coisas constrangedoras nesse filme, mas os momentos de maior desconforto pra mim foram a gagueira forçadaa do Giamatti e a vovó vietnamita(?) expert em mitologia escandinava (narf?)
Gostei do tête à tête dos atores com a câmera, foi o que salvou a cena do crítico sendo devorado.
Quanto à "missão" do shyamalan, é realmente um pé nas bolas, mas é com carinho... Acho interessante que ele tenha exigido que as filmagens fossem feitas na pensilvánia, à meia hora da casa dele, talvez ele tenha uqerido chutar o balde mesmo. Mesmo displicente, continua com umas sacadas dramáticas bacanas.

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