O Tambor

O Tambor
De Volker Schloendorff
Odeon ter 2 18:50
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Esse filme alemão de Schloendorff tem toda a pinta de um filme do leste europeu, e nos créditos finais constatei que grande parte foi filmada na Polônia. Isto porque um clima de auto-crítica um tanto sarcástica e a forma ímpar com que combina comédia e drama não pode vir da sisuda Alemanha, e sim parece mais presente nos filmes europeus. Ao mesmo tempo, não raras cenas de O Tambor me lembraram o tom de alguns filmes de Fellini, em como o íntimo e o grotesco se unem para compor o retrato de uma sociedade, e como um tom onírico e nitidamente não-realista aprofundam um desejo de investigação de uma realidade.

O menino Oskar não quer crescer, quer para sempre continuar com três anos e em companhia de seu tambor. Se fosse alemão, o filme seria uma espécie de Kasper Hauser, mas como tem o espírito do leste europeu, O Tambor via uma crônica desvairada, e uma revisitação arguta de uma sociedade alemã rumando para a guerra, diante do nazismo. As grandes reviravoltas do roteiro são aliadas com uma composição muito particular entre o realista e o não-realista. Esse “menino que não quer crescer” representa o desejo de uma Alemanha, que não quer estar entre “o mundo dos adultos”. Nessa miríade de pequenos e grandes sentimentos, Schloendorff faz um filme com um tom estranho, uma triste sátira de costumes, um filme humano e político e ainda grande espetáculo, de notável realização. Com isso, realiza um belo filme mas, como uma ilha, que não consegue articular as bases de um cinema pessoal que vai ter uma continuidade em filmes posteriores do próprio diretor.

O tipo de filme que mostra “a visão da guerra por uma criança” vai aqui ganhar uma roupagem mais original, tanto no que diz respeito ao retrato de uma “guerra” (não chega a ser propriamente uma guerra) quanto no retrato do mundo infantil. Quando Oskar está exatamente embaixo da Torre Eiffel e olha para cima, uma pessoa pergunta para ele “o que você está pensando?”. E ele responde, na barra de saia da minha avó. É esse tipo de cinema – irreverente, íntimo e humano – que O Tambor revela em seus melhores momentos.

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