O filme mais ousado do mundo

Crônica de Anna Magdalena Bach

de Jean-Marie Straub e Danielle Huillèt

DVD americano, qui 25 mai

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Esta semana ganhei um inestimável presente: um DVD de Crônica de Anna Magdalena Bach. Impossível é descrever o encantamento que foi poder rever o filme, em condições que se ainda não são as ideais (a película 35mm) são muito melhores que as que vi pela primeira vez (um tosco VHS). Aqui devo traçar ingênuos comentários que possam dar alguma luz de como é possível imaginar que este filme tão simples ( 70% do filme é Bach tocando sua música e outros 20% são cartas sendo lidas) seja uma das maiores obras-primas da história do cinema.

 

Crônica é Straub, e Straub é Crônica. Trata-se de um documentário ficcional e de uma ficção documental. Trata-se de um filme experimental.

 

Crônica é o filme mais ousado do mundo.

 

Crônica nos faz questionar qual é a função do cinema e do que um filme é feito.

 

Straub é o Pascal do cinema. Matemático, científico, metafísico e humano. Religioso.

 

Quem foi Bach, o maior gênio da arte ocidental? Não nos cabe dizer.

Talvez nos dê alguma luz ler parte da comunicação entre ele e seu grande amor: Anna Magdalena.

Talvez nos dê alguma luz ouvir parte de sua obra, à luz de seu maior intérprete: Gustav Leonardt

 

A coisa mais bonita já dita sobre o filme é que ele é uma história de amor. Claro, quem o disse foi o próprio Straub. História de amor entre Bach e Anna Magdalena. História de amor entre o cinema e a música, entre a arte e a vida. História de amor entre Jean-Marie Straub e Danielle Huillet.

 

De um bloco de concreto brota uma flor.

Crônica é poesia do espírito, filme materialista. Cinema-arquitetura.

 

Crônica é absurdamente anti-cinematográfico. É como se alguém quisesse filmar o dicionário Aurélio. Straub o faz e nos faz chorar.

 

Crônica é o filme mais ousado do mundo.

 

Godard disse que Straub era alienado porque no meio da efervescência dos movimentos de 1968 lançava esse filme antigo sobre Bach. Straub disse que o filme era a sua resposta à invasão americana ao Vietnã.

 

Straub se privou de muita coisa para fazer o filme. Vivia mal, praticamente garantia a sua alimentação e o aluguel do seu conjugado. Tudo o que tinha investiu nesse filme.

 

É inacreditável presenciar uma sessão de Crônica. Chegamos até a acreditar que o cinema pode ser uma arte séria, e não mera prostituição, como recentemente disse Bergman.

 

Ave Straub.

Comentários

Moacy disse…
Meu caro: onhecia 'Crônica' de uma sessão, há tempos, na Cinemateca do MAM; o filme já tinha me fascinado. Revendo-o, agora, em dvd, fiquei completamente alucinado com a beleza do filme. Pretendo escrever algo sobre ele, em breve, e aproveitarei parte de sua análise, muito boa. Um abraço.
ricardo disse…
eu também quero essa cópia em dvd.
abs.
Anônimo disse…
Como adquirir o filme Crônicas de Anna Magdalena Bach? Mande um e-mail p mim: moncajazeira@yahoo.com.br
Cecil disse…
Você está enganado. Teceu bonitas ponderações sobre arte e cinema, poesia e arte. Mas o filme de Straub é simplesmente a maior fraude cinematográfica da história do cinema. É o filme mais odioso do mundo. E lhe digo por que é.

Nada mais mafioso, indigno, bandido e canalha do que esquivar sua falta de talento para o cinema filmando concertos onde os músicos estejam vestidos como na época da composição, ambientar as performances no contexto histórico e intercalar com uma enfadonha narração dos trabalhos e rotina (de gigantesco trabalho, diga-se por sinal, em volume, não somente em qualidade) do compositor que está sendo tocado, e para garantir o sucesso da bandidagem, colocar ninguém menos do que J.S. Bach no negócio. Não há atuação (apenas uma atuação de peças escolares), não há ação, não há imagem de cinema, mas apenas filmagem de cinegrafista que grava um concerto. Experimente ouvir o filme apenas, sem assistir. Eu fiz a experiência. Acredite, dá no mesmo. Porque o filme é Bach. Não Straub. É um bandido escondendo sua mediocridade sob a capa do maior gênio que a música ocidental conheceu. Faça-me o favor. "Crônicas de Anna Magdalena Bach" é um tiro em nossa inteligência, enquanto cinema. Se queriam experimentalismo e ousadia, que entregassem o projeto a Godard.

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