A Música de Gion

De Kenji Mizoguchi

MAM sab 1/abr 18:30

** ½

 

Filmado nos anos 50, época áurea da extensa filmografia de Mizoguchi, o pouco visto A Música de Gion não está no nível da melhor produção do diretor, o que está longe de significar que é um filme ruim. Como os demais filmes do diretor, é um exame ambíguo e doloroso sobre as mudanças da sociedade japonesa: pega um tema aparentemente antigo ( o regime das gueixas) para compor um painel moderno das transformações econômicas da sociedade japonesa com o pós-guerra. Eiko quer ser uma gueixa, como sua mãe e como sua irmã. Com a morte de sua mãe, pede ajuda à irmã para tornar-se gueixa, pois seu tio quer torná-la uma prostituta. Sua formação é quase uma “educação sentimental”: Eiko é apresentada, num curso prático, ao dessacralizado “mundo dos adultos”. Ao contrário de todos os rituais que aprendeu ao longo do curso, sua “vida prática” requer malícia, habilidade e esperteza. As duas pobres gueixas acabam sendo vítimas do destino, tendo um final um tanto melancólico, sombrio. Eiko precisa vender o seu corpo para sobreviver, e, se não o faz, então quem o faz é sua irmã, mais velha e com menos perspectivas para subir na vida. Essa parece ser, pelo menos lá no início dos anos 50, o destino da nação japonesa, “arreganhada” em suas vísceras mediante a invasão capitalista com o Plano Marshall. O conservador Mizoguchi olha essa “abertura” com profundo senso crítico e pesar: é a sobrevivência possível, fim das tradições japonesas para o reino do “aqui-e-agora”. A estética observadora, os planos longos, o cuidado com o acabamento e com a mise-en-scene fazem de a Música de Gion um típico filme do diretor mas sem o encantamento pictórico de outros filmes, ou ainda, sem essa sua particular metafísica. Esse submundo que Mizoguchi conhecia tão bem acaba sendo, de uma forma dolorosa, um retrato de um Japão íntimo.

Comentários

Moacy disse…
Meu caro: Aoarentemente, gostei mais do filme do que você, mesmo reconhecendo (nesse ponto, concordamos) que é inferior às obras-primas de Mizoguchi. Um abraço.

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