Cega Obsessão

Cega Obsessão
De Yasuzo Masumura
DVD, sab 5 de março 16hs
***

O povo japonês é muito bizarro. Eles (uso aqui a terceira pessoa) levam muito a sério esse negócio do existir, não tem espaço para a condescendência dos latinos. Cinema da alma, das angústias do viver, mas cheio de contradições, de auto-críticas agudas, e também de sangue e de lágrimas secas.

Como se sabe, para o típico oriental, a questão do corpo e a questão do toque são temas difíceis. Há sempre uma “distância respeitosa” que se expressa através do corpo. Este Cega Obsessão, extraordinário lançamento em DVD da Magnus Opus, primeiro filme de Masumura lançado em vídeo no Brasil, é um trabalho muito agudo sobre isso.

Mas é um trabalho também que me atordoou muito porque vem muito de contato com as coisas que eu venho fazendo e pensando sobre cinema. É um trabalho sobre os limites do artista e de seu processo de criação. O artista do filme é cego, menininho mimado que nada sabe da vida e das mulheres, e não é à toa que faz trabalhos inúteis, toscos sobre o corpo feminino. Quando ele rapta uma putinha para que lhe sirva de modelo, seu equilíbrio se rompe, suas contradições se extrapolam. Inútil para a vida, inútil para a criação artística, o artista cego de Masumura é espelho da impotência do Homem ante sua própria criação, seja antes os dilemas da arte seja ante os dilemas da vida. O artista vive em seu casulo trancafiado da vida. Seu “estúdio”, retiro íntimo, lugar de criação, é expressão de suas “bizarrices”, de seu mal-estar: o lugar íntimo de criação e de desejo do artista é apresentado como um filme de horror, de forma magnífica: as paredes cheias de pedaços de partes do corpo humano, uma luz dura da lanterna que contrasta com a plena escuridão.

O artista, sua mãe e a putinha formam um trio de notáveis limitações, e quando se estabelece a roupa suja entre os três, o filme vira uma tragédia, porque os três têm razão. E quando todos têm razão e não existe culpa, a coisa acaba no conflito. Mas Masumura quer ir mais além, e o terço final do filme é quase insuportável. O entrecho amoroso, a coisa da descoberta do corpo e do prazer acaba assumindo um sentido mórbido. O prazer é degenerativo, e como seus limites são insuportáveis, acabam se revelando um instrumento de dor e de morte. Toda a coisa lúdica do corpo e do toque, das “teorias do artista sobre uma nova forma de criação baseada no toque”, acabam no limite se tornando essência destrutiva e mórbida. Aí Cega Obsessão vira um estudo sobre a putrefação da carne, sobre a natureza humana, sobre a transitoriedade da vida, sobre a impossibilidade plena do amor. E ainda mais bizarro é seu final: ao avesso de Dorien Grey, as mutilações no corpo da modelo se transferem para o corpo da escultura inerte, para a argila fria. São as marcas impressas no próprio corpo da criação; a vida que se imprime na matéria inerte, ou o artista que se arremessa para o interior de sua criação sem vida. Avaliação íntima sobre a alma da obra de arte, assume ao mesmo tempo um aspecto sombrio, de putrefação e de degeneração do próprio corpo da obra, que também ele é putrefato (isto é, a argila também se deteriora, assim como o próprio filme vira vinagre, não nos esqueçamos do final de Corrida Sem Fim, do Monte Hellman). Conclusão dolorosa e necessária nesse estudo sobre as impossibilidades do artista e do homem, um belo amargo filme de Yasuso Masumura. Imperdível.

Comentários

Anônimo disse…
Cinema é olhar mesmo, não? Discordo em gênero, número e grau sobre o que vc escreveu acerca de Mar Adentro.

P.S.: Liguei para a Estácio a partir de sua 'denúncia' anônima e paguei um certo mico. Primeiro pq não havia exigência nenhuma acerca do meu filme e segundo porque não me enviaram e-mail algum e eu sequer pude imaginar quem possa ter sido o cara que me fez a tal 'denúncia'. Muito obrigado pelo mico que me fez pagar.

Roberto Maxwell
Anônimo disse…
É, vc me ajudou muuuuuuuuuuuuuuuito não se identificando e me fazendo entrar em contato com a faculdade sem que houvesse alguma necessidade. Vc estava tão certo acerca do que estava dizendo que sequer usou seu nome. Aliás, pelo visto, o anonimato é algo que te apetece, né? Nem no blog tem o seu nome escrito. Se vc quer ajudar alguém, seja direto, objetivo e, de preferência, honesto. Porque se eu não estivesse interessado em sua ajuda, não lhe teria respondido da maneira que respondi. Agora, eu não sou nenhum moleque. Tenho 30 anos, sou professor formado e atuante e aprendi que certas coisas são regidas com ética. Todos os problemas que eu tive com a Estácio (e não foram poucos) foram resolvidos diretamente, não por mensagens anônimas on line. Não é à toa a consideração que eu tenho na faculdade. Talvez seja, não somente pela responsabilidade que tenho e pela qualidade dos trabalhos que realizo, por que sou honesto e jogo limpo. Nunca me escondi no anonimato para fazer quaisquer queixas na faculdade. Por isso que, antes de difamar alguém, fui ligar para a CEP e me informar acerca do seu e-mail. Espero que vc não ache que estou lhe escrevendo outra piadinha. Não sou homem desse tipo de coisas e se não estou te dizendo isso pessoalmente é porque vc sequer se identifica.
Muito obrigado por sua ajuda.
Roberto Maxwell
Anônimo disse…
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Anônimo disse…
Bem, Ikeda, agora que te achei prefiro conversar com vc pessoalmente.
Cinecasulófilo disse…
Meu blog nunca teve tantos comments... obrigado Roberto! Mas faz o seguinte: pelo menos vê o filme do Masumura, aí a gente conversa, tá? :)

Ah, adorei a parte do "tenho 30 anos e sou professor formado e atuante"... Eu um dia chego lá...

Pode me xingar à vontade via e-mail mas pelo menos neste solo sagrado vamos falar sobre cinema... numa boa... paz...

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