A MELODIA DA BROADWAY
A MELODIA DA BROADWAY
(The Broadway Melody,
1929)
de Harry Beaumont
Dando continuidade ao curso que
visa exibir todos os filmes vencedores do Oscar de Melhor Filme — ministrado
por Wesley Pereira de Castro e Hamilcar Dantas na Universidade Federal de
Sergipe (UFS) —, depois de Asas, ontem foi a vez de The Broadway Melody. O
longa é um dos primeiros musicais realizados por Hollywood, lançado em 1929,
ainda no período de transição para o cinema falado.
É curioso pensar como os dois
primeiros premiados do Oscar oferecem modelos diferentes, mas complementares,
para o cinema industrial hollywoodiano. Se Asas é um filme de ação belicista,
The Broadway Melody é uma leve comédia musical. Mas esses dois filmes tão
distintos têm algo em comum: primeiro, as inovações tecnológicas como base do
mercado cinematográfico. Se em Asas o trunfo eram as cenas bélicas aéreas, em
Broadway Melody o que fascina o público é o uso da voz em sincronia,
especialmente nos números musicais. Além disso, ambos reafirmam o
empreendedorismo de personagens jovens que buscam seu lugar de sucesso na
competitiva nação americana.
No filme, duas irmãs vêm do
interior para se tornarem artistas de sucesso em Nova York. Essas duas mulheres
independentes, que viajam sozinhas e tentam se afirmar em meio a um universo
machista, já espelham uma faceta do que depois seria a screwball comedy,
especialmente no período pre-Code. A lascívia explícita, os códigos morais
flexíveis, as mulheres que saem livremente com homens... são características
que seriam refreadas após o Código Hays, em 1934.
De todo modo, Broadway Melody relata
as dificuldades dessas artistas em se firmar no cenário do music hall ou do
vaudeville norte-americano, mas de uma forma leve e bem-humorada. Elas
precisam, é claro*, da ajuda de um homem: Eddie, o “song-and-dance man”, que é
namorado da irmã mais velha (Hank), mas se vê apaixonado pela bela irmã mais
nova (Queenie). O filme, então, rapidamente se estabelece como um triângulo
amoroso (ponto em que é curioso pensar que Asas também foca em um homem
dividido entre duas mulheres).
No final, há uma conclusão
duvidosa em que Eddie simplesmente troca a irmã mais velha pela mais nova. A
primogênita já possui menos oportunidades simplesmente por sua idade; o filme é
bem direto ao afirmar que Queenie faz mais sucesso não necessariamente por ser
mais talentosa, mas pela beleza física que atrai tanto Eddie quanto os
empresários e patrocinadores. Queenie fica dividida entre seu amor verdadeiro,
mas proibido (Eddie), e as tentações do luxo vindas do empresário Jock, embora
receosa em ser enganada pelo poderoso mulherengo. Ainda que a obra mostre
festas em que Queenie circula sozinha, há um arremedo moral em que sua irmã e
Eddie condenam suas escolhas. O desfecho resulta em uma conciliação na qual a
irmã mais velha sacrifica seu amor para salvar a caçula e recuperar o equilíbrio
do trio — que, em alguns momentos, parece quase resvalar na possibilidade de um
trisal, rs.
A sequência mais interessante
talvez seja a do ensaio geral do espetáculo. Nela, vemos uma cena
metalinguística que desmistifica o glamour da produção artística, mostrando os
meandros: ciúmes, disputas de bastidores, a preferência pelos dotes físicos em
detrimento do talento, a pressão dos patrocinadores, os egos inflamados e a
falta de segurança. Esse tom de crônica de costumes dos bastidores
"mambembes" me lembra muito as opções éticas e estéticas da chanchada
brasileira. Broadway Melody poderia ser visto, sem muito exagero, como um
precursor da chanchada pela forma como lida com o show biz tentando sobreviver
e improvisar modelos de mercado que tornem o negócio possível — e como a vida e
a arte vão se fundindo nesse processo para tornar a existência possível, e não de
forma idealizada. Talvez esse seja o gesto mais interessante do filme:
aproximar o artista da vida comum, com seus desejos, mas também suas pequenas
trapaças, ardis e cobiças.
Por fim, é preciso ver a obra
sob a ótica da transição para o som. Para um musical da época, era um desafio
posicionar os microfones e restringir os movimentos da câmera, que ficava
trancada em um enorme case-aquário para abafar o ruído do equipamento. Esses
elementos ajudam a explicar por que o filme é tão incipiente em sua linguagem,
com pouca dinâmica entre as cenas, excesso de planos gerais e poucos movimentos
internos. A decupagem e a montagem são ainda muito pouco funcionais para um filme
que já beira a década de 1930, o que demonstra a pouca inventividade de Harry
Beaumont como "diretor de formas".
De todo modo, ainda que
insatisfatório em termos fílmicos, The Broadway Melody mantém seu interesse
quando pensamos nas relações do cinema hollywoodiano em seu período de formação
e sua transição para o sonoro.
* uso "é claro" como um comentário irônico sobre o machismo das produções hollywoodianas.
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