O HOMEM NÃO SEPULTADO
O HOMEM NÃO SEPULTADO
A temetetlen halott, 2004
de Marta Mészáros
Nutro uma profunda admiração pela
fimografia da cineasta húngara Marta Mészáros, em especial pelas obras
realizadas entre as décadas de 1960 e 1970. Em filmes como A garota (1968), A adoção
(1975) e Nove meses (1976), Mészáros articula
com originalidade e maestria os desafios da mulher em seguir um caminho
independente, equilibrando os dilemas do regime socialista com a crueza da
condição da mulher operária.
No entanto, Mészáros manteve-se
ativa, e confesso que minha admiração não se estende com o mesmo vigor à sua
produção a partir dos anos 1990. É curioso considerar que o fim do regime
socialista possa ter sido acompanhado por um arrefecimento na inventividade e
na contundência de sua obra. Se nos seus primeiros filmes a resistência se
manifestava na fresta e na lacuna, sua produção madura revela-se mais aderente
aos padrões da indústria cinematográfica do Leste Europeu. Embora tecnicamente
irrepreensível, essa fase parece ter abandonado o tom corrosivo e subversivo em
favor de uma narrativa mais palatável e institucional.
O homem não sepultado (2004) é nesse sentido até mesmo um filme
atípico na trajetória de Mészáros. O filme é uma biografia ficcional sobre a
trajetória do líder húngaro Imre Nagy, que foi capturado, após a invasão
soviética na Hungria em 1956. Ao tentar encontrar um caminho próprio entre o
stalinismo e o capitalismo, acabou traído tanto pelos aliados comunistas
dissidentes quanto pela incapacidade de intervenção do Ocidente. O filme se
passa durante o período de um ano e meio entre sua captura e execução, período
em que Nagy permaneceu isolado primeiro em Snagov, na Romênia, e depois em uma
prisão em Budapeste. Nagy recusou-se a assinar qualquer termo que legitimasse o
novo governo imposto por Moscou. Com o endurecimento da linha política
soviética, ele foi afinal condenado em um julgamento fechado e executado por
enforcamento pelo regime de János Kádár. Enterrado inicialmente como indigente
em uma vala comum, Nagy foi reabilitado apenas em 1989, quando seu enterro com
honras de Estado tornou-se o símbolo do fim do regime socialista no país.
O filme de Mészáros tem o mérito
de resgatar a trajetória de Nagy, ainda pouco conhecida no Ocidente, e
evidenciar o dogmatismo do regime soviético que sufocou as aspirações de
liberdade e democracia na Hungria. Mas, a partir disso, ficam as questões: como Mészáros encena essa história?
Todas as opções de mise en scène
do filme apontam para uma visão acadêmica e conservadora da histografia. Estruturado
sobre uma biografia linear e centrada em um único indivíduo, o filme converte
Nagy em um mártir — uma figura
crística em permanente calvário em defesa de um povo que, narrativamente,
permanece no extracampo ou reduzido a uma massa sem voz. Mészáros contribui
para uma escrita romântica da história, com antagonismos maniqueístas que
remetem ao romance clássico do século XIX. Em termos visuais, a obra é
meramente ilustrativa, operando em um registro acadêmico que beira o
protocolar.
As soluções narrativas
aproximam-se de uma hagiografia. O
filme assemelha-se a uma peça de propaganda estatal sobre a identidade
nacional, visando consolidar a imagem de um líder incorruptível. É inevitável
questionar até que ponto essa biopic convencional não acaba por mimetizar a
linguagem do "inimigo" para erguer seus próprios mitos. Não seria
exagero comparar este projeto estético ao "realismo socialista": um
engajamento direto que forja a imagem da nação através da monumentalização de
um herói.
Por meio do culto à
personalidade desse mártir, a estética do filme produz um efeito de
monumentalização, em que o líder não é mais o guia para o futuro comunista, mas
o guia para a identidade nacional húngara recuperada. A principal diferença é
que enquanto os filmes do realismo socialista stanilista eram movidos pelo otimismo revolucionário, o
filme de Mészáros é movido pela melancolia do trauma. A estética da celebração
do líder é usada para narrar uma derrota que, através do martírio
cinematográfico, é convertida em vitória moral. Essa abordagem
"acadêmica" e santificada acaba, de fato, retirando as ambiguidades
políticas do Nagy real para transformá-lo em um ícone de resistência, o que
aproxima o filme mais da propaganda estatal de identidade nacional do que de um
drama psicológico investigativo.
Ao adotar a estrutura da
"paixão" religiosa e a estética do realismo socialista, Mészáros
paradoxalmente incorpora os modos de expressão daquilo que visa denunciar. O
filme acaba esvaziado de seu potencial político essencial, tornando-se uma
leitura didática que expõe as heranças do autoritarismo na própria forma da
cultura contemporânea. Ao contrário do desfecho de Binding sentiments (1969), em que a protagonista
rompe com o sistema para forjar seu próprio caminho, em O Homem não sepultado a
cineasta parece trair sua própria herança ao utilizar as armas do sistema para
supostamente combatê-lo.
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