GRAN TORINO
GRAN TORINO
(Gran Torino, 2008)
de Clint Eastwood
Ontem (23/04) fui ao Cineclube
da Cinemateca da UFS para ver a segunda sessão da Mostra Clint Eastwood. É bastante
curioso perceber que, nos dias de hoje, torna-se praticamente um ato subversivo
e de coragem exibir filmes de Eastwood num auditório de uma universidade. Nitidamente
havia uma certa tensão entre os organizadores para como seria o debate com os
estudantes em torno de Gran Torino. O que mudou nesses quase vinte anos para
cá?
Essa tensão se justifica pelo
fato de o protagonista do filme não preencher os requisitos dos manuais de conduta
dos membros de nossas bolhas sociais: o personagem de Clint é rasgadamente
xenófobo, machista, racista, misógino, entre outros adjetivos inomináveis.
Esse filme, até o talo embebido
sobre a identidade da nação americana, curiosamente nos parece super atual sobre
o nosso Brasil de hoje: vendo-o hoje, e dados os enormes desafios que teremos
neste segundo semestre de 2026, ele me faz pensar: como é possível conversar
com nossos truculentos vizinhos armamentistas, racistas, bolsonaristas?
Gran Torino tem o seguinte ponto
de partida: Clint (Walt Kowalski) é um veterano da guerra da Coreia que, após a
morte da esposa, subitamente percebe que é um estrangeiro no bairro onde sempre
viveu: ele está invadido por uma “horda” de imigrantes orientais pouco educados
e qualificados (segundo ele) e por gangues de jovens delinquentes sem rumo. Ele
quase não tem amigos. Sua família (a família de seu filho) está apenas
interessada na sua herança. Ele vive completamente isolado em torno do seu
rancor e dos traumas da guerra, trancafiado em torno do suposto rigor de seus
valores idealizados, negando o mundo à sua volta.
Quase como um Rambo, Walt
percebe que todo o projeto de América pelo qual lutou na guerra está
completamente esfacelado nos tempos atuais. E curiosamente ele irá perceber que
seu senso de comunidade e de família será composto não por sua família de
sangue mas pelos seus vizinhos Hmong, os quais ele inicialmente odeia.
Apesar de abominável, Walt no
fundo é uma pessoa boa. A chave do filme é a ambiguidade desse grande
personagem. E devemos perceber que esse personagem é vivido pelo próprio Clint.
Não apenas pelo próprio diretor do filme, mas sobretudo pelo mesmo Clint,
conhecido como o matador implacável dos filmes de Sergio Leone e outros à la
Dirty Harry. Gran Torino, assim como outros filmes dirigidos por Eastwood,
expressa o desencanto de um velho matador, que mergulha com um acerto de contas
agora com sua própria trajetória – não propriamente arrependido pelo passado,
mas, diante de uma crise de consciência, buscando uma forma de seguir adiante e
de alguma forma perpetuar o seu legado.
Nesse ponto, Clint é fatalista:
não é possível para esse personagem se redimir, parece ser tarde demais. Para
que os valores nobres que ele representa possam perdurar, é preciso que ele
morra. Isto é, para que os valores fundantes da América possam se preservar, é
preciso que certa América morra. E que renasça sobre os olhos de uma nova
geração, mais purificada, que não tenha “as mãos cobertas de sangue”.
Daí reside a beleza ética mas
também os paradoxos do cinema de Clint. Sua ética preserva um ideal de beleza e
de verdade metafísico neoplatoniano que permanecem intactos. O mundo, quase
sempre “sujo”, nunca irá corresponder ao mundo idealizado. A solução desse
conflito será sempre a violência, o choque e a morte.
Para quem acusar o filme como
xenófobo, é exatamente o contrário: esse ideal purificado de bondade está
encarnado não no filho de Walt (um vendedor pragmático e mercenário) mas sim no
pobre, fraco e indefeso imigrante Thao. Ideal que, de alguma forma (outro dos
paradoxos do filme), está corporificado na velha Gran Torino (o carro), um tesouro
trancafiado na garagem de Walt. O filme pode ser visto como uma travessia
moral, em que Thao não precisa mais roubar o carro, mas deve se esforçar (ou
crescer eticamente) para fazer por merecê-lo.
Apesar de bom e esforçado, o
jovem Thao não irá ter um bom futuro porque pe ameaçado pelas gangues locais.
Aqui entra o senso de justiça do filme. Como esse jovem pode ter uma
oportunidade na vida para ser uma boa pessoa, e não ir para o “mau caminho”?
Essa solução não será encontrada pelos meios institucionalizados (a escola,
totalmente ausente do filme, a polícia ou mesmo a Igreja) mas sim num elemento
externo à comunidade imigrante: aquele homem branco sulista, o justiceiro “acima
do bem e do mal” representado por Clint.
(Essa solução me relembrou
inclusive das soluções do Cinema Novo, segundo a leitura feita por Bernardet em
Brasil em tempo de cinema, em filmes como Os fuzis, em que a saída para uma comunidade
periférica, oprimida e perseguida, é sempre oferecida por um estrangeiro, o
homem branco de classe média que ingressa como o “salvador capaz”.)
Mas, como dizíamos, apesar de
abominável, Walt no fundo é uma pessoa boa. A chave para a ambiguidade moral
desse personagem é o tom de humor que preenche a narrativa. Percebemos logo de
cara que Clint é um velho ranzinza, como um cão bravo que sempre range os
dentes, mas que no fundo é uma pessoa boa porque tem valores como justiça e
lealdade. Maus mesmo são seus filhos, criados quase como caricaturas. Seu filho
é um vendedor de carros japoneses (para Walt, uma “traição”, uma vez que ele
passou a vida como funcionário da Ford, um símbolo americano), que só pensa no
dinheiro e na vida fácil. O materialismo da vida americana sufoca os valores
realmente importantes da América, que estão indo para o buraco devido à
ganância e ao egoísmo. Percebemos que Walt se fecha em seu interior purificado,
em torno dos seus traumas passados, porque o mundo real corrompido não consegue
preencher o seu ideal. Diante de tanta violência, é curioso como Gran Torino é
um filme engraçado. Essa certa leveza funciona não apenas para conferir ao
filme um maior alcance de público mas especialmente por, desde o início,
oferecer uma camada crítica em relação a esse personagem. Ou seja, claramente rindo
de suas posturas e ações, fica claro que o filme não corrobora o gesto de seu
personagem, mas o mostra como ridículo e constrangedor, inserindo uma camada
crítica. Essa é a política subversiva desse filme.
Aqui, gostaria de inserir uma
segunda camada. Assim como seu personagem busca resgatar os valores de certa
América, Clint (o diretor) quer fazê-lo não apenas como tema de seu filme, mas
por meio de um profundo diálogo com a própria tradição do cinema
norte-americano. Daí sua adesão direta pelo clacissismo como modelo ético.
Gran Torino poderia
tranquilamente ser um filme de John Ford. Ele se estrutura como um faroeste:
Clint incorpora o papel de um xerife que faz justiça com as próprias mãos e tenta
colocar ordem no meio do “velho oeste” corrompido. A América cresceu forte pela
domesticação dos instintos decaídos, pelo adestramento dos “índios” e pela
implementação dos valores ligados à comumidade, à verdade (idealizada) e à
justiça. Talvez Thao possa ser pensado como uma espécie de “índigena contemporâneo”
a ser adestrado por Clint, que o ensina a atuar como um “homem” e inclusive o
coloca em um emprego (precarizado) na construção civil. Thao não poderá ser um
jardineiro ou um artista/intelectual mas servir de “braço forte” na construção
de uma nova América. Seu treinamento inclusive se dá em limpar, consertar e
arar casas no entorno da comunidade. Ao final, Thao é um “indío” civilizado e domesticado,
pronto a seguir com os valores da América que Clint perpetua.
Mas, como dizíamos, o que é
comovente e coerente em Gran Torino é sua aposta incondicional pelo classicismo
– o “velho cinema de Ford”, o velho cinema americano, a velha não americana –
não contaminados pelo pragmatismo e materialismo da Hollywood dos anos 2000
(que poderia ser representada pelo seu filho rs). Assim como seu personagem,
Gran Torino (o filme) não tem rodeios ou firulas: é econômico e direto em se
apresentar como fábula moral e política sobre os impasses dos Estados Unidos de
hoje (de 2008). O classicismo de Clint é expresso por suas opções de mise em scène
que, antes de serem opções estéticas, nunca são meramente decorativas, mas
pressupostos morais: o filme se atém ao essencial – e nada mais.
Gostaria de encerrar esse texto puxando
novamente para o Brasil de hoje e para os nossos próprios impasses. De um lado,
como é possível conversar com nossos vizinhos bolsonaristas (a famíllia Hmong
conseguiu fazê-lo, ainda que sacrificasse a filha mulher pelo sucesso do filho
homem, algo bastante problemático num filme absolutamente masculinizado)? De outro,
como é possível conversar sobre essa necessidade em nosso campo progressista
(isto é, como debater esse filme entre jovens estudantes de uma universidade de
cinema?). Mesmo diante de todas as suas contradições, Gran Torino é solar
porque surge como ponto de partida possível para esse debate, por meio de suas
incontáveis provocações. E ele só o faz porque nos tira de nossa zona de
conforto – e a maestria de Clint é como ele consegue dar uma forma
cinematográfica a esse dilema.
Última provocação: como seria um
debate de Gran Torino com uma plateia “bolsonarista”? Em que pontos seriam
diferentes com uma plateia de “identitaristas”? E em que pontos as leituras se
aproximariam rs? Uma provocação....
p.s.: uma ótima piada sobre mise en scène. Nessa sequência, Walt (o personagem de Clint) se torna inesperadamente um diretor de atores: ele encena uma situação educativa e instrui o jovem Thao a como se comportar em uma barbearia. Num jogo de espelhos curioso, Clint (o diretor) se expressa no ator Clilnt e no personagem Walt, tendo que dirigir uma cena inventada.
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