BETTY BLUE
Betty
Blue
de
Jean-Jacques Beineix
Ontem, atendendo ao
convite de Wesley Pereira de Castro, um grupo de amigos cinéfilos reuniu-se no
afetivo Cinema do Centro em Aracaju para revisitar Betty Blue. O filme de
Jean-Jacques Beineix reestreia nos cinemas décadas após seu lançamento
original, trazendo consigo uma provocação central: quarenta anos depois, o que
desta obra deve ser recuperado como lição para o domesticado cinema de hoje e o
que se tornou anacrônico, devendo ser evitado ou condenado?
Eu já conhecia a fama do filme muito por sua aura de
escândalo, especialmente pelas cenas de sexo. De fato, o primeiro plano
apresenta o casal em um longo travelling, em uma posição quase explícita. No
entanto, fora essa abertura - que recorda, a grosso modo, o início de Coisas Secretas,
de Brisseau -, há pouco que justifique tamanha polêmica. O sexo está longe de
ser o tema central; ele é, antes, uma isca ou mero ponto de partida da
narrativa.
O filme é bastante centrado no romance de um casal
que vive um para o outro, como se o mundo exterior fosse supérfluo. É a
materialização do lema romântico de que "o amor salva": não há
amigos, família, instituições ou válvulas de escape para além de viver a vida
em função do amor. Nada mais e isso basta. Existe apenas a vida vivida em função
do outro. Contudo, essa relação deve ser observada além do desejo físico. Há
uma comunhão química, quase mística, que permite a ambos servirem de suporte
mútuo nos momentos de maior fragilidade.
Mas o que mais me encantou nesse filme de Beineix
não é propriamente o corpo ou a psicologia do relacionamento amoroso e sim o
seu gosto pelo cinema. Gostando ou não das premissas e das conclusões morais do
filme, é indiscutível que Betty Blue, para além de sua suposta aura de
escândalo sexual para os pequeno-burgueses entediados, é um “filme de cinema”.
Beineix, no auge de sua maturidade artística, compõe cenas que se destacam não
propriamente pelo roteiro mas por um certo clima de suspense sensual, uma certa
atmosfera mística que estimula que nos identifiquemos com aquela casal pela
composição de ritmos e texturas que vão muito além do descritivo e invadem
nossos sentidos e especialmente o nosso imaginário.
Esse casal vai romper com as estruturas sociais
institucionalizadas e vai embarcar no aprofundamento da relação a dois como se
a vida fosse uma aventura a ser vivida a cada dia, em sua surpresa, em seu
encanto mas também em seu mistério. Duas pessoas frágeis que se aproximam
misteriosamente e passam a servir um como apoio ao outro, e escancaram sua
solidão. O começo do filme curiosamente me lembrou de Tempos modernos, de
Chaplin, pela recusa ao emprego formal, como sintoma de uma recusa à
institucionalização dos laços da sociedade e o percurso em deriva por uma vida
vivida no presente, sem grande projeto de futuro, como se o espelho de um certo
anarquismo. Betty Blue respira esse liberdade não apenas nos corpos dos
protagonistas, mas pelo desejo de uma mise em scène que mergulhe no imaginário
desses pequenos serem que partem numa trajetória de autodescoberta e se
entregam aos pequenos prazeres da vida – e percorrem a vida em deriva. Creio
que são nesses momentos do filme que a ética e a estética de Beineix se
entrecruzam nos seus momentos mais singulares.
Parece que o corte original do diretor possuía três
horas, reduzidas a 120 minutos por exigências comerciais. Talvez isso explique
por que a segunda metade não sustenta as premissas iniciais. A transição do
"paraíso relacional" para a decadência espiritual de Betty ocorre sem
as nuances necessárias, perdendo potência cinematográfica. É como se o filme
abandonasse a fantasia humanista subversiva e anárquica de Chaplin para se
transformar em um ensaio de paixão psicológica obsessiva à la Żuławski.
À medida que mergulha no desequilíbrio psíquico da
protagonista, o filme perde seu élan, desembocando em um final problemático:
Betty Blue acaba reduzida a uma mera musa que funciona sobretudo como forma de
preencher a fertilidade do escritor masculino. Ele, como um vampiro,
alimenta-se do sangue e da tragédia da amada para, enfim, florescer sua arte. É
uma conclusão bizarra que, infelizmente, compromete a beleza construída
anteriormente.
Ao retornar à pergunta inicial, percebemos que Betty Blue merece ser lembrado não pela falsa polêmica sexual — que até certo ponto objetifica o corpo de Béatrice Dalle e deixa em segundo plano sua tocante atuação—, mas por sua potência cinematográfica aberta ao imaginário. É um filme livre, que não se prende num teor didático de lições socioculturais de esparrela, mas que celebra a liberdade de personagens que mergulham de frente para o mundo. Por outro lado, o que deve ser superado é o seu machismo estrutural e a insistência em sacrificar a psicologia feminina em prol de um projeto de dominação masculina. As dores e delícias de Betty Blue ecoam as próprias contradições da arte e da cultura nos últimos quarenta anos: um percurso em que avançamos por um lado, enquanto recuamos em outros.


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