TEMPOS MODERNOS

TEMPOS MODERNOS

(Modern times, 1936)

Charles Chaplin

 



Estou aproveitando minha estada em Aracaju para visitar os diversos cineclubes desta cidade. Na UFS coexiste um considerável número de cineclubes que fomentam a cultura cinéfila. Isso é formidável, especialmente em se tratando do contexto universitário. Um dos mais instigantes, pelo rigor de sua curadoria e qualidade dos debates, é o Cineclube Solberg.

Ontem (16/04/2026) assisti à sessão de nada menos que Tempos Modernos, o clássico dos clássicos de Charlie Chaplin. Revê-lo foi comprovar sua enorme atualidade, o que justifica plenamente sua alcunha de “clássico”: algo que perdura através dos tempos. Assisti ao filme no mesmo dia em que vi uma declaração de Marco Feliciano posicionando-se contra a redução da jornada 6x1, com o argumento que o trabalho dignifica o homem, e que o indivíduo deve trabalhar até a exaustão para lograr sucesso e prosperidade para si, sua família e sua nação.

A atualidade da obra nos faz refletir mesmo sobre o período atual, em que o capitalismo não é mais o da indústria em série, mas de um outro tipo de precarização, expressa pelo falso empreendedorismo das plataformas e dos serviços de telecomunicações.

As imagens hilariantes de Carlitos apertando parafusos e sendo engolido pelas engranagens tornaram-se icônicas na história do cinema. Mas, como bem enfatizado no debate após a sessão, é preciso ver Tempos Modernos não apenas pela relevância do tema mas sobretudo pelo rigor de sua mise en scène.

Isso me faz refletir sobre a natureza do cinema popular. Venho comentando como, no Brasil, o termo é visto meramente como sinônimo de sucesso comercial. A associação é perigosa, pois alguns sucessos de bilheteria, como Minha mãe é uma peça ou Os farofeiros não são, a meu ver, exemplos de cinema popular, mas meras caricaturas grosseiras de uma visão do povo distorcida pelas lentes de uma classe média “odiosa”, para usar a expressão de Marilena Chauí. O cinema de Chaplin nos estimula a repensar essa quesstão e a nos conectar com uma arte verdadeiramente popular. Mais ainda: nos faz perceber que um filme popular pode (digo mais, e deve) ser sofisticado em termos de sua concepção artística.

Diante disso, o que dizer sobre uma obra tão analisada como Tempos Modernos sem cair no clichê? O que posso afirmar diante dessa revisão é que a arte de Chaplin reside em encontrar uma poética popular para oferecer um outro lado da expansão dos modos de ser nos Estados Unidos, especialmente no período entreguerras. Se Asas (debatido anteontem em outro cineclube da UFS) expressava o desejo de construção dos Estados Unidos em torno do ideário da burguesia industrial, em Tempos Modernos vemos a contraparte paga pelos desvalidos para dar sustentação a esse regime. Os dois filmes se complementam ao formar um painel amplo e complexo dos desafios e das contradições de um projeto de nação.


O Carlitos de Chaplin poderia facilmente parecer um loser. No entanto, apesar de sua ingenuidade e de seu anacronismo, ele resiste – talvez justamente por causa disso. A forma de Tempos Modernos é coerente com o percurso moral de seu protagonista. Tempos Modernos aposta radicalmente em um anacronismo consciente. Em vez do grande espetáculo sonorizado, Tempos Modernos, em plenos 1936, permanece investindo na pantomima, recusando os modelos de desenvolvimento da própria indústria cinematográfica.

Essa opção é consciente e deliberada. Se observarmos bem, o filme não é totalmente silencioso. O som se faz presente em momentos específicos, e sempre de forma crítica. O momento antológico ocorre quando Carlitos precisa cantar, mas esquece a letra. É quando se evoca o espírito ancestral do vaudeville e Chaplin (talvez agora não mais o Carlitos) se apresenta frontalmente como um artista mambembe do palco – uma declaração de princípios comovente. Algo que me lembrou o gesto de Parade – o último filme de Jacques Tati composto exclusivamente de gags visuais e cenas de pantomima.

Rever Tempos modernos foi também relembrar que o filme se expande para além do universo da fábrica e das relações de trabalho. No fundo, a obra é composta por um conjunto de esquetes, que se articulam e se integram livremente, como os quadros de uma apresentação circense. O filme, como diversos outros de Chaplin, não é organizado linearmente como um romance, mas possui uma estrutura reticulada, compondo uma espécie de painel de “fragmentos da vida”, se usarmos o título de um dos filmes de José Medina. É curioso que, aos moldes do pioneiro cineasta brasileiro, o personagem de Chaplin também se esforce ao máximo para ser preso.

Outras diversas referências surgiram em minha cabeça durante a sessão, como as gags à la Buster Keaton (um barco indo ao mar [The boat, 1921], a casa se desmanchando [One week, 1920], e especialmenre as acrobacias com os patins à beira do abismo). Em um momento hilariante, Chaplin acaba ingressando acidentalmente em uma passeata de trabalhadores, cena que me lembrou o recente The mastermind (Kelly Reichardt, 2025).


De todo modo, ao final da projeção, em meio a muitas gargalhadas (é um filme realmente engraçado), persistiu em mim uma sensação de melancolia. O que perdura é a solidão desse protagonista que, sem família ou respaldo dos movimentos institucionalizados, permanece vagando pelo mundo sem amparo, sem um sentido maior a não ser sobreviver, sem nenhum ideal de progresso ou identidade, sem nenhum eixo ou zona de conforto. O niilismo e o anarquismo de Carlitos espelham sua liberdade, mas, ao mesmo tempo, como diria uma frase de W. H. Auden que repito constantemente, “ser livre é muitas vezes ser só”. Nesse ponto, a amizade com a personagem de Paulette Goddard parece nos dizer que a solidariedade pode ser a única forma de manter nossa sanidade e nossa humanidade diante de um mundo desumanizado e sobretudo indiferente aos que não se deixam cooptar pela suposta chama do progresso.

 

  







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