Feminino Plural

Feminino Plural
De Vera de Figueiredo
TVE, sab 28 24hs
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Essa verdadeira raridade passou no ótimo programa Cadernos de Cinema da TVE, em que pudemos ter contato com um filme de uma diretora pouco conhecida dentro do cinema nacional, Vera de Figueiredo, que vem tentando captar recursos para o seu próximo projeto. Feminino Plural se associa com Os Homens que eu Tive, de Tereza Trautman, no sentido de propor um cinema feminino, que investigue, em meio a um clima de ditadura e de repressão da liberdade do indivíduo, as possibilidades de expressão da mulher, especialmente em sua relação com o seu corpo e com o sexo. Esse lado “subversivo” de desafio às convenções de uma sociedade machista já é apresentado num brilhante prólogo, em que um conjunto de motoqueiras pega a Avenida Brasil na direção da periferia, onde – numa forma metafórica – o filme se desenvolve. Esse entrecho de filme narrativo (o filme acaba com a suposta travessia de volta das mulheres ao grande centro) acaba se dissolvendo ao longo do filme, logo após uma feijoada que parece adormecer as personagens para fazê-las entrar numa outra espécie de realidade. Elas acordam do seu transe e entram num mundo de suspensão dos sentidos, superando os seus limites, libertando-se dos seus grilhões e das imposições da própria sociedade. Surge daí um cinema experimental que trabalha de forma aguda com a valorização dos sentidos, com ênfase num trabalho de expressão corporal quase à moda teatral. Por outro lado, os tempos largos, a tendência à alegoria política e a câmera que baila pelos salões abertos lembram o tom barroco de Terra em Transe. Mas o lado lúdico e poético de trabalho com o corpo do ator relembra a descoberta da sensualidade e a redescoberta do próprio corpo como essência de um movimento de libertação feminina. Ou seja, enquanto Os Homens que eu Tive busca na abertura sexual uma forma franca de desafiar os limites impostos às mulheres pelos padrões conservadores, Feminino Plural busca um cinema feminino através não só de uma política comportamental mas também através de uma linguagem própria, através de um cinema feminino. Com isso, dialoga com a tradição vanguardista, como os filmes de Maya Deren. Ainda que o filme apresente problemas de ritmo e de desenvolvimento, cansando um pouco ao final, a sensação de ter visto Feminino Plural é de ter descoberto uma pequena jóia escondida diante dos abismos do cinema nacional: um trabalho sempre sincero, sempre em busca de novas formas de expressão para a mulher e para o cinema, entre erros e acertos, entre a representação e a vida, mas sempre com um profundo sentimento de mundo por trás.

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