MEDEIA
MEDEIA
(Medeia, 1969)
de Pier Paolo Pasolini
Confesso que poucos filmes
vistos recentemente me deixaram tão perturbado quanto Medeia, de Pasolini. Eu
já o havia visto uma vez, há cerca de 25 anos, numa sessão dupla na Cinemateca
do MAM, junto com Édipo Rei. Mas não me lembrava de quase nada; na época, eu
havia me interessado mais por Édipo.
Revi o filme agora em uma sessão
do Cineclube Entreato, no Cinema do Centro, em Aracaju. Foi muito bonito ver a
sala completamente lotada em plena segunda-feira para assistir a esse filme
nada convencional. Não é uma obra fácil e é repleta de supostas contradições.
Trata-se de uma adaptação singular da tragédia de Eurípides, da qual sei menos
que o básico.
Em resumo, Medeia trai o pai e
assassina o irmão na Cólquida para ajudar Jasão a roubar o Velo de Ouro e fugir
com ele para Corinto. Chegando lá, Jasão a troca pela filha do rei. Em
vingança, Medeia arquiteta um feitiço que mata a princesa, provocando também a
morte do rei. Em seguida, ateia fogo à casa e mata, com uma espada, os dois
filhos que teve com Jasão. E foge. A história choca porque o mundo dos mitos e
dos deuses antigos não pode ser avaliado segundo a nossa moral cristã.
A exibição foi seguida de um
debate com o organizador e professor Fernando de Mendonça, que fez uma provocação que ficou ressoando em
mim: Medeia é uma heroína.
Como ela poderia ser uma heroína
se trai o pai, assassina o irmão, abandona sua Cólquida natal seguindo um
aventureiro que depois a despreza e, em vingança, mata os próprios filhos? A
traição de Medeia ao seu mundo natal não parece produzir efeito para a
construção de um novo status quo, revelando uma motivação aparentemente
egoísta, tanto na fuga quanto no infanticídio final.
Debrucei-me em algumas leituras
para tentar entender o gesto de Pasolini ao recuperar Medeia e compreender
essas dualidades. Talvez por isso o filme permaneça tão misterioso: Pasolini
parece querer mostrar a ruptura de um mundo arcaico/sagrado para um mundo
moderno/profano. Quando Medeia segue Jasão, ela encontra uma Corinto cujos
valores são os opostos do mundo sagrado da Cólquida. Ao despir-se de suas
vestes e colocar o vestido amarelo, Medeia está dessacralizada, integrada à
força na visão de mundo de Corinto e abandonada por Jasão, que foi pragmático
ao trocá-la pela filha do rei. Entre a filha do mundo do feitiço e a filha da
nova ordem material, Jasão opta pela segunda.
A vingança de Medeia é, então,
uma forma de restabelecimento do mundo dos mitos diante de uma Corinto
dessacralizada. Ela mata os filhos para impedir a continuidade do sangue de
Jasão em seu próprio sangue. Ademais, o sangue - do irmão e dos filhos - é
visto sob a ótica do sacrifício e da conexão com o divino.
Pasolini toma a liberdade de
dedicar quase metade da obra a um contexto anterior à peça de Eurípides,
mostrando a educação de Jasão e os modos de ser na Cólquida. O filme examina
detalhadamente o mundo sacralizado dos mitos. Uma parte importante desse longo
prólogo é o sacrifício humano cujo sangue é espalhado pela natureza.
A paisagem é um elemento ativo.
As locações em diversos países mostram que certas ruínas dessa civilização
ainda permanecem presentes no mundo contemporâneo dos anos 1960. Ainda, os
gestos, as vestes, as cores e, sobretudo, a fisionomia dos personagens — algo
muito vivo no cinema de Pasolini, que nos conecta a essa instância ancestral
ligada à terra e nos associa ao conceito de fotogenia de Louis Delluc — são tão
importantes quanto a estrutura dramatúrgica de Eurípides.
Medeia mata não apenas por uma
vingança romântica individual. Os sacrifícios representam uma conexão com um
mundo pré-civilização, um gesto de resistência pelo campo do divino contra a
barbárie da civilização capitalista burguesa e seu projeto de destruição da ancestralidade.
Gostaria de apontar duas
questões que fogem da estrutura de Eurípides. O Centauro é uma figura crucial
que aparece duas vezes. Na primeira, é responsável pela educação de Jasão
criança, que não diferencia profano de sagrado. Depois, Jasão adulto revê o
Centauro sob duas formas: o Centauro-animal, que permanece vivo, mas mudo; e o
Centauro-humano, que explica por que Jasão nunca entenderá Medeia. O
Centauro-humano expressa o homem moderno e racional que Jasão se tornou.
Outro ponto é a
"dobra" na cena do presente para a filha do rei. Pasolini mostra uma
sequência espelhada: na primeira versão, a princesa é queimada pela magia; na
segunda, ela comete suicídio saltando das muralhas. Essas cenas são
entrecruzadas com um plano em fusão do rosto de Medeia, como se ela estivesse
projetando mentalmente essas cenas. Imaginação e real se fundem.
É curioso que Pasolini tenha
escolhido a diva Maria Callas para representar a força desse mito ancestral.
Será que aqui ele foge da sua fotogenia "do povo" e se aproxima do
star system das divas prontas para o seu close-up? De todo modo, Callas, quase
muda, não canta; sua força reside, sobretudo, na construção de uma presença
monumental.
O debate após o filme expressou
a perplexidade do público diante de uma heroína que não segue os códigos morais
da sociedade cristã, que não sente culpa ou remorso. Permaneço pensando: o que
o gesto de Medeia gera para além de si mesmo? O que sua fúria restabelece no
mundo, para além de sua candente solidão? Volto à frase de W. H. Auden: “ser
livre é muitas vezes ser só”. Se Fernando de Mendonça tem razão e Medeia é uma
heroína, ela certamente não é uma heroína da Disney, mas uma heroína
monstruosa.
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