Lista 100 filmes Abraccine (2026)
Algumas reflexões sobre a lista de 100 filmes brasileiros essenciais da Abraccine (2026)
Sempre haverá quem questione a própria existência de listas de “melhores” ou “essenciais” quando se trata de processos artísticos. Se seleções podem conferir visibilidade para os títulos selecionados, elas também acabam produzindo inevitáveis apagamentos. De todo modo, vejo a nova lista como um valioso ponto de partida ou como um retrato de como a crítica de cinema brasileira enxerga a nossa própria história e de quais princípios e questões recebem maior relevância em determinado momento histórico.
Se pensarmos no cinema brasileiro até os anos 1960, houve poucas mudanças. Todos os títulos da lista de 2016 permaneceram, com o acréscimo de três obras: O ébrio (Gilda de Abreu) e dois filmes dirigidos por José Carlos Burle. A inclusão de O Ébrio em uma lista de essenciais em 2026 pode causar certa surpresa, mas pode ser explicada por dois fatores: a necessidade de reconhecer uma realizadora na primeira fase do nosso cinema e o desejo de também contemplar sucessos de bilheteria. Talvez a grande surpresa sejam os dois filmes de Burle, especialmente Também somos irmãos, um filme do diretor que não é uma chanchada. Já Carnaval Atlântida abre o leque do gênero para além do cinema de Carlos Manga (O homem do Sputnik). De todo modo, permanece um tronco central relacionado à historiografia clássica, em torno de eixos como “Cinédia”, “chanchada”, “Vera Cruz”, “pré-Cinema Novo”, além de marcos inquestionáveis como Limite e a obra de Humberto Mauro. Realizadores pioneiros como José Medina ou Silvino Santos permanecem de fora.
Nos anos 1960, o cânone também não sofreu maiores alterações. A maior surpresa é, sem dúvida, a inclusão de Carlos Hugo Christensen, um cineasta à margem do embate entre Cinema Novo e Cinema Marginal que permeou o período. A propósito, é nítida na lista a redução do chamado Cinema Marginal, saindo títulos icônicos como Blá blá blá e Meteorango Kid, e permanecendo um único título de Julio Bressane (Matou a família…).
De modo geral, a principal tendência da nova lista da Abraccine é a aderência às pautas afirmativas, expandindo a presença de mulheres e negros. No entanto, deixo a provocação: a inclusão desses títulos de fato contribui para uma historiografia revisionista, ou apenas acaba inserindo “novos cânones” isolados, como A entrevista (Helena Solberg), Alma no olho (Zózimo Bulbul) e Amor maldito (Adélia Sampaio)? Ou seja, se houve indiscutivelmente um bem-vindo aumento de filmes realizados por mulheres e negros, esses títulos parecem ter integrado um novo estrato canônico fechado, de modo que outros nomes historicamente invisibilizados - como Vera Figueiredo, Kátia Mesel, Afrânio Vital ou Waldir Onofre - continuam excluídos do debate.
Outra tendência é a consolidação do cânone por meio do impacto comercial de cópias restauradas. Filmes que não constavam na lista anterior, como Carlota Joaquina, A Rainha Diaba, Saneamento Básico ou Onda Nova, certamente foram lembrados graças à visibilidade e à circulação de seus recentes relançamentos. Ou seja, a formação do cânone não decorre apenas da crítica ou da pesquisa acadêmica, mas também das estratégias de distribuição e mercado.
Em paralelo à redução do cinema experimental e não narrativo, observa-se a perpetuação da exclusão da pornochanchada. Com a honrosa exceção de Jean Garrett (A Mulher que Inventou o Amor), o gênero continuou escanteado, e diretores fundamentais como Ody Fraga e Cláudio Cunha permaneceram ignorados. Há quem afirme que as novas gerações vêm se “encaretando” e que o cinema afirmativo por vezes se mostra refratário às representações mais explícitas do sexo. Talvez esse fenômeno se reflita na quase nula presença da pornochanchada e em um recorte dos anos 1980 excessivamente domesticado, salvo honrosas exceções como Onda Nova e Superoutro. Se analisarmos os filmes selecionados a partir de 2010, chegaremos a uma conclusão insólita: apenas as obras de Karim Aïnouz (Madame Satã e O Céu de Suely) lidam de forma direta e central com as tensões da sexualidade.
Outra constatação impressionante é o domínio quase absoluto de produtoras do eixo RJ-SP. Entre os 100 filmes, apenas 14 são “fora do eixo”, de apenas seis estados (BA, PE, DF, MG, PB, RS). Se considerarmos os filmes até o ano de 1989, a assimetria é ainda mais gritante: apenas 2 títulos foram gestados fora do eixo - Aruanda (Linduarte Noronha, PB) e Um é pouco, dois é bom (Odilon Lopes, RS). É preciso perceber que há obras filmadas em outras regiões, especialmente no Nordeste, mas cujo controle patrimonial permaneceu no eixo RJ-SP - o que abrange desde Ganga Bruta (do mineiro Mauro mas produzido pela carioca Cinédia) e os marcos do Cinema Novo filmados no sertão nordestino, como Vidas Secas, Os Fuzis e Deus e o Diabo, até o contemporâneo O céu de Suely, do cearense Karim Ainouz, filmado em Iguatu (CE) mas produzido pela Videofilmes (RJ) e Gullane (SP). Além disso, não há nenhum filme da região Norte presente na lista.
A partir dos anos 2010, no entanto, esse cenário se modifica radicalmente. Entre os 12 títulos brasileiros entre 2010 e 2025 selecionados, nada menos que 7 pertencem a produtoras fora do eixo RJ-SP. Além dos filmes de Kleber Mendonça Filho (PE), filmes de Adirley Queirós (DF), Affonso Uchoa (MG) e Gabriel Martins (MG) comprovam a consolidação do “novíssimo cinema brasileiro” a partir dos anos 2010. Esse dado demonstra a importância histórica das políticas públicas para ampliar o cinema brasileiro para além dos centros hegemônicos. Talvez por isso as associações de produtores do RJ e de SP tenham pressionado tanto o MinC e a Ancine para preservar seus privilégios: o cinema “fora do eixo” provou sua excelência estética e chegou para ficar.
Essa dinâmica abre espaço para percebermos que a principal ruptura entre as listas de 2016 e 2026 talvez não seja a inserção meramente compartimentada de mulheres e negros, mas sim a mudança de olhar sobre a produção do século XXI, marcada pelo enxugamento do "cinema da retomada" em favor do "novíssimo cinema". Longas presentes na lista de 2016, como Carandiru, Estômago, O Palhaço, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias e O Lobo atrás da Porta, que personificavam a chamada "tradição de qualidade" da Retomada, agora foram descartados.
Chama a atenção também a exclusão sumária dos três títulos de José Padilha que figuravam na lista anterior (Ônibus 174 e Tropa de Elite 1 e 2). Será que a exclusão se deve a questões fílmicas ou foi influenciada pelos posicionamentos políticos do realizador? É possível pensar de forma análoga para o agora “cancelado” Cláudio Assis, cujo Amarelo Manga também saiu da recente lista? Em contrapartida, obras imponentes e radicalmente fora dos padrões de mercado ou dos festivais internacionais, realizadas por veteranos como Paulo César Saraceni e Rogério Sganzerla na virada do milênio, também foram descartadas nesta revisão.
Em linhas gerais, é possível concluir que a nova lista da Abraccine ratifica os pilares do cânone tradicional, preservando a linhagem consagrada pela historiografia clássica. Se é notável a maior presença de filmes de mulheres e negros, estes ainda permanecem em pouco número e consolidando alguns poucos favoritos privilegiados, os “novos cânones” desse segmento. Enquanto isso, outros segmentos cruciais, como os cinemas indígenas, permanecem invisibilizados.
A lista propõe, portanto, um avanço tímido. Suas estruturas de base continuam inalteradas, promovendo apenas ajustes laterais que não abalam a conformação de um olhar hegemônico sobre a trajetória do cinema nacional. Fica o questionamento se esse revisionismo afirmativo contemporâneo não se constitui, afinal, em preservar os velhos muros institucionais, limitando-se a pendurar novos quadros na parede sem mexer na estrutura do edifício. Nesse sentido, a lista - e o nosso próprio cinema - segue refletindo, de formas misteriosas, o próprio retrato do Brasil.
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