O Mentiroso

O Mentiroso

De Tom Shadyac

Globo, sab 11 ago 16hs

* ½

 

Como diria Visconti no início de O Leopardo “As coisas precisam mudar para que elas continuem as mesmas”, e o cinema hollywoodiano soube interpretar o significado dessa frase com muita precisão. Dos melodramas moralistas típicos da geração grifitthiana até os arroubos pós-modernos de As Panteras, o cinema americano é o mesmo: é preciso remodelar-se para manter seu espírito de sempre. É também por isso que o cinema americano nos fascina e nos aterroriza e frequentemente nos envolve em uma relação de amor e ódio: ele nos seduz para nos conquistar pelo estômago ou pelo coração, o que no fundo dá no mesmo.

 

* * *


Os primeiros planos de O Mentiroso já deixam claro que o filme é uma crítica ferina ao American Way of Life. A professora pergunta aos alunos qual é a profissão do pai. Um dos meninos diz que seu pai é um mentiroso. “Mas o que ele faz?” “Ele veste terno, vai ao tribunal, responder perguntas para um juiz” “Já sei, ele é um advogado”

 

Mas o que torna o filme uma crítica ao modelo americano nem é tanto pelo lado do Direito, ou da Justiça, mas na forma como o filme incide sobre o eterno dilema entre “ter uma carreira” ou “ter uma família”. A preocupação do personagem de Jim Carrey em ter fama, dinheiro e ascender profissionalmente o afasta de seu filho. Separou-se de sua esposa, e ela está prestes a ir para outra cidade com um novo companheiro.

 

Rapidamente, o filme coloca sua questão básica: esse homem deve decidir entre os negócios ou a família. Os dois são vistos como concorrentes, e ele deve fazer uma opção. E o momento é este, antes que seja tarde demais: ele já perdeu a esposa, está prestes a perder o filho.

 

Mas aí o filme entra com um elemento novo, pois é uma comédia, e não um drama familiar. Entra em cena uma espécie de realismo mágico. No seu aniversário (que o pai não consegue ir por causa do trabalho), o menino faz um pedido: que o pai não minta por um único dia.

 

Com isso, o pai entra em mil enrascadas, especialmente no tribunal. No cinema de gênero americano, O Mentiroso é hábil por combinar, por trás do gênero comédia, elementos de outros gêneros, como o drama familiar e o filme de tribunal. Com isso, consegue um equilíbrio entre ser um “filme masculino” e um “filme feminino”. Os homens se divertem com as peripécias de Jim Carrey; as mulheres torcem para que esse pai resolva ficar com o filho.

 

Mas falamos do realismo mágico. Não é possível viver falando a verdade sempre, o tempo todo. Principalmente no cinema. Principalmente no cinema americano.

 

Ao mesmo tempo, o pai não pode perder a ação nem o filho. Não pode mentir mas não pode ser um derrotado. Como fazer isso?

 

Isso não importa aqui: o filme avança rápido para o seu final, o roteirista consegue driblar algumas incongruências, e resolve todas essas questões, pois, afinal, é preciso criticar o regime para que ele fique ainda mais sólido, para que possamos faturar em cima das nossas desgraças e nossos paradoxos.

 

O pai não mente, mas ainda assim ele deve conseguir ser fiel à sua profissão, a seus clientes, a si mesmo e à sua família. No final, é possível conciliar o sucesso profissional com o sucesso pessoal; é possível ter uma família sendo um homem de sucesso, se houver um equilíbrio, um meio-termo. Ou seja, é o supra-sumo do velho e bom cinema ético americano. Ou seja, do cinema griffithiano.

 

O realismo mágico tem um papel fundamental nisso. As coisas parecem normais mas não estão, porque houve esse “pedido mágico” do menino que foi aceito. É como no cinema: as coisas parecem como na vida real, mas não são. Mas podem ser, se você quiser. A vida real pode ser como no cinema. Basta você acreditar e agir assim. Esse é o velho e bom cinema ético americano.

 

No final, há uma cena bonita, a melhor do filme. Um ano depois, o menino faz um novo aniversário. É a única cena em que o pai não está de terno, o que mostra toda uma mudança de comportamento (lembramos como o menino definiu o pai logo no início do filme “ele veste terno”). Assim que o menino faz o pedido, as luzes se apagam, simbolizando um novo “realismo mágico”. Quando se acendem, os pais estão se beijando. Eles perguntam ao filho se o pedido foi para que os dois voltassem a ficar juntos. O menino responde que não, ele pediu um brinquedo. Claro, agora o realismo mágico não é mais necessário, e o filme faz esse percuso simples do cinema para a vida, fazendo dessa “screwball comedy” uma parábola moral sobre a grandeza da verdade e a importância da família.

 

Spielberg deve ter dado piruetas na cadeira do cinema.

 

Comentários

Hugo Henrique disse…
Gostei desse texto!
[ ]s
hugoh

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