Bom, publico aqui um texto meu publicado no Diário do Nordeste sobre o curta dos Irmãos Pretti exibido em Oberhausen. Tive que escrever muito depressa, mas gosto do texto, em especial o primeiro parágrafo. Esse texto, para mim, é quase uma homenagem ao texto da Consuelo Lins sobre o Santiago, que causou enorme impacto em mim, porque se trata da melhor coisa sobre cinema que já vi publicada num jornal há anos. Um texto que é afetivo, afetuoso, sem deixar de ser profundamente rigoroso e analítico. Vai tbem fundo na análise sem fazer um texto hermético nem muito menos pedante, que olha o filme “de cima para baixo”. É generoso para com o filme e para com o leitor: tudo o que a crítica precisa ser. Sinto um enorme orgulho de ter sido convidado para escrever esse primeiro texto publicado sobre o curta, e principalmente no Nordeste, e tenho a pretensão de dizer que ser eu a escrevê-lo é totalmente justo e coerente. Hoje eu reescreveria uma frase sobre Buster Keaton, porque evidentemente o uso da palavra não tem nada a ver com isso. Na hora de juntar duas frases a expressão ficou ruim. Ossos do ofício. Eis o texto:

 

 

“Às vezes é melhor lavar a pia do que a louça, ou simplesmente Sabiaguaba”

 

O Festival de Oberhausen é conhecido por ser o principal evento mundial de exibição de curtas-metragens com uma busca por novas fronteiras para a linguagem audiovisual. Este ano, em sua 53ª edição, dois curtas brasileiros foram selecionados para a Mostra Competitiva, para a qual se inscreveram mais de 6500 obras de todo o mundo. Um deles, inédito no Brasil, foi realizado no Ceará: “Às vezes é melhor lavar a pia do que a louça, ou simplesmente Sabiaguaba”, dirigido por Luiz e Ricardo Pretti. Com menos de 25 anos, os “Irmãos Pretti”, como são conhecidos, realizaram uma filmografia que totaliza três longas e mais de quinze curtas-metragens, sem nunca ter o apoio de nenhuma lei de incentivo ou edital público. No entanto, seus trabalhos nunca foram selecionados para nenhum festival ou mostra de cinema no Brasil, com a única exceção da Mostra do Filme Livre. No cenário cultural carioca, recheado de filmes-piada e esteticismos superficiais, sempre foram vistos com desdém. Desencantados, migraram para Fortaleza, onde encontraram novo ânimo. Alinhados com uma nova geração de videomakers cearenses, com quem travou contato durante os cursos da Escola do Audiovisual e do Instituto Dragão do Mar, e com o apoio de personalidades do novo cinema cearense, como Alexandre Veras e Ivo Lopes Araújo, Luiz e Ricardo Pretti finalmente conseguiram solo fértil para sua veia poética desabrochar. Desprezados no Brasil, foram descobertos simplesmente pelo mais importante festival de curtas-metragens do mundo.

 

“Às vezes é melhor lavar a pia do que a louça, ou simplesmente Sabiaguaba” é um filme pessoal, o que já é revelado pelos créditos, que indicam que toda a equipe do filme é composta exclusivamente pelos dois irmãos, inclusive participando como atores, representando os papéis de si mesmos. Como trabalho pessoal, o curta é uma reflexão sobre a própria trajetória dos Irmãos Pretti e sobre o sentido de seu “êxodo urbano”. Ao chegar em Fortaleza, os irmãos se retiram no interiorano bairro de Sabiaguaba. O curta se passa num único dia, quando os irmãos acordam, e esperam os donos da casa, moradores locais, chegarem. Enquanto esperam, eles convivem com esse novo espaço físico e convivem consigo mesmos. Os irmãos (autores-atores-personagens) são, portanto, estrangeiros em relação a essa casa e a esse espaço físico. No entanto, a visão desses estrangeiros é totalmente diferente de um olhar exótico ou curioso em relação a esse lugar outro, a que eles não pertencem. Seu olhar em relação a esse novo espaço não possui uma ânsia de uma descoberta, ou um senso de novidade, mas evidencia uma monotonia e um sentido de inércia, cristalizados nessa eterna espera dos amigos que nunca vêm. Enquanto “esperam Godot”, ambos vivem “dias em branco”: cochilam, acordam, fazem exercícios, preparam comida, cantam, criam. Fugindo das estruturas narrativas mais convencionais, em Sabiaguaba os dois irmãos “são”, mais do que “representam que são”, o que dá ao filme um aspecto contemporâneo que se insere num limite tênue entre a ficção, o documentário e o experimental, numa vertente estilística que se alinha às discussões estéticas de cineastas tão diferentes quanto Apichatpong Weerasethakul, Pedro Costa ou Claire Denis.

 

Esse tom da melancolia da espera é no entanto quebrado com uma abordagem irônica, como uma profunda autocrítica do que se busca nesse lugar outro. O humor surge, como no cinema de João Cesar Monteiro, ou ainda mais explicitamente no de Buster Keaton, da ingenuidade desses personagens e da disjunção dos movimentos do corpo e do uso da palavra. Enquanto riem de si mesmos, os Irmãos Pretti apresentam um cinema inventivo em continuidade com seus trabalhos anteriores: o íntimo diálogo com o cinema contemporâneo, os tempos alongados, o corte seco de imagem e som, uma estética da solidão e um questionamento sobre a natureza da imagem e da representação diante desse profundo desafio de viver.

 

Comentários

R. Cavalo disse…
Opa! Que bom receber tua visita! Apesar de ter achado o comentário meio distante.
Frio?

Sabe que, algumas semanas atrás, quando já tinha me mudado para SP e estava morando numa casa onde eu não tinha nada mais que minhas roupas, livros e filmes e cds, e o computador, e um caderno com uma caneta... eu fiquei pensando nos seus vídeos. E para suprimir minha angústia entre aquelas paredes desconhecidas, para suavizar o tédio que o tempo infligia a mim, peguei a caneta e escrevi, no caderno, sobre seus vídeos, e sobre o efeito deles naquele exato momento "ikedano" que eu estava passando.
Marcos A. Felipe disse…
Ikeda, parabéns pelo texto publicado nos Diários do Nordeste, mas vc me deixou curioso em relação ao texto da Consuelo Lins. Como chego a ele? Obrigado!!!

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