Volver

Volver
de Pedro Almodovar
Sao Luiz 3 21:30
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É muito bonito ver um cineasta no auge da sua fase criativa. Com Almodovar é assim: de "enfant terrible" ao mestre do melodrama, marcou com duas obras-primas (Fale com Ela e Tudo Sobre Minha Mãe), a síntese de seu cinema. Então, o que fazer? Parece ser a hora de se remodelar, "mudar para continuar o mesmo", aliás como ele já havia feito desde A Flor de Meu Segredo, após outras obras-primas como Matador e A Lei do Desejo. E isso é ainda mais bonito: porque Almodovar pode ser acusado de tudo, menos de covardia, menos de conformismo. Quase beirando o marasmo do "choque-de-grife", Almodovar dá uma grande guinada com A Flor do Meu Segredo, até chegar em Tudo Sobre Minha Mãe, um filme do tamanho do mundo.

Este Volver, então, vai na mesma linha já apontada em Má Educação, e não é à toa que os dois filmes têm sido tão mal compreendidos: partem do mesmo pressuposto, o de "mudar para continuar o mesmo". E essa mudança se dá nas suas próprias entrelinhas, já que os dois filmes são jogos com a narrativa e o fazer cinematográfico, e com as convenções do cinema de gênero. No meio das convenções do cinema de Almodovar, são dois filmes de estrutura. A artesania é quase deixada de lado: cada vez mais Almodovar se revela um cineasta clássico, lúdico, sem "ter que aparecer" ou "ter que mostrar um estilo". Está na maturidade, de não ter mais que provar para mais ninguém que se sabe o que quer.

E é ainda mais bonito pensar que Volver fala exatamente isso: dessa ingrata e linda tarefa de recomeçar, de girar a roda da vida. É nessa linha de metalinguagem que Volver gira entre a comédia de humor negro e o melodrama do cinema de lágrimas. E, claro, um filme sobre as mulheres, um filme feminino mas não como o termo "feminino" geralmente é visto, do filme "belamente poético" mas de uma poesia às vezes dura, às vezes desigual, e às vezes irregular mesmo. Um filme sobre mulheres: a necessidade de as mulheres enterrarem seus homens para viver de forma independente, e desse acerto de contas com o passado, dessas gerações que se misturam, se transformam e que continuam a mesma. Dessa vontade de enterrar os homens, enterrar o passado, apenas pela possibilidade de construir um futuro, de acenar para uma possibilidade de reverter tudo isso.

Essa esparança como força motriz é a matéria-prima do novo cinema de Almodovar, que contamina até mesmo a própria estrutura da narrativa, que se dobra sobre si mesma, que se transforma, que vira um filme sobre si mesma. O caminho de Almodovar é o do inconformismo, inclusive consigo mesmo. Mesmo que Volver seja irregular, tenha problemas de ritmo e não seja tão perfeito quanto suas obras-primas do melodrama, é preciso saber o que está em jogo para Almodovar: o cinema. E nessa linha, e dadas as metaformoses anteriores de Almodovar, não é difícil prever que outra obra-prima surja nos próximos anos, um tanto igual e um tanto diferente dos outros filmes de Almodovar.

Volver (voltar) aponta para a frente. E isso é o que importa.

Comentários

Roberto Queiroz disse…
A primeira vez que tive contato com um filme de Almodóvar (o filme em questão foi A Lei do Desejo) acreditava que ele seria mais um diretor superestimado pela crítica e coloquei-o no mesmo patamar de Woody Allen (cineasta de que, salvo A Era do Rádio, Zelig e A Rosa Púrpura do Cairo, não gosto). Porém, com o tempo e com belos filmes (dos quais udo sobre minha mãe é o exemplo maior) ele foi me cativando e conquistando meu espaço. Ainda não vi Volver, mas pretendo assistir (tem diretores que prefiro ver em DVD, não sei explicar o porquê, é algo como uma terapia, preciso estar sozinho em casa para refletir sobre sua obra cinematográfica. Almodóvar é um desses casos). Espero que ele consiga nesse novo filme manter a média. Abraços do crítico da caverna.

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