O Céu de Suely

De Karim Ainouz

Estação Paissandu qui 23 21hs

** ½

 

Hoje eu tive o privilégio de assistir a O Céu de Suely no Estação Paissandu no último horário, ou seja, sem ninguém na minha frente. Eu esperava mais, mas de qualquer forma é muito bacana observar esse movimento de espírito do cinema de Ainouz: em contraste com a energia e o cromatismo de Madame Satã, vem um filme assumidamente menor, os tempos, o diálogo com o cinema documental de O Céu de Suely. A questão é que eu esperava que Ainouz fosse um pouco mais longe num diálogo com um cinema contemporâneo: os tempos (especialmente), a paisagem, um olhar. Ou seja, esperava um trabalho mais radical. Mas isso é mais uma questão de expectativa minha do que do filme em si, porque O Céu de Suely é acima de tudo um trabalho coeso, coerente, honesto, humano. É de qualquer forma um alento dentro desse panorama atual do cinema brasileiro e que também nos faz levantar um punhado de questões: o corpo como mercadoria, o olhar para o Nordeste sem os estereótipos e os lugares-comuns de sempre, um cinema de autor sem grandes firulas virtuosísticas. E acima de tudo a questão da possibilidade do afeto que o filme toca. Hermila volta para o Ceará mas acaba querendo ir “para o lugar mais longe dali”. Uma nova história com o motoqueiro João Miguel já não é mais possível: além das cicatrizes, é preciso ir para longe, buscar um caminho próprio. “Não faz isso”, ela lhe diz, porque é preciso um outro caminho. Nisso, é um filme feminino, sobre a fuga como possibilidade de encontro, mas apenas como possibilidade. Por isso, é muito preciso e bonito e plano final, contextualizando o filme como um road movie, relacionando o final ao início numa espécie de simetria, na duração do plano, na câmera estática, no “ir e voltar” do motoqueiro que simboliza o próprio movimento do filme, a necessidade do afeto e da solidão.

 

Coisas de que não gostei: a montagem, que tira do filme alguns tempos fracos que interessariam mais ao filme especialmente na primeira parte, pois o filme é todo um tempo de espera e de redescoberta de si (quando isso acontece: os planos na rodoviária e a posterior chegada de moto de João Miguel, o filme cresce). Outra: senti falta de um contato maior da Hermila com seu filho, coisa que, aliás, sei que tinha muito pelo menos no copião, a que, por acaso, tive acesso, já que, por causa do meu trabalho, tive participação em uma “não-decisão” do filme da qual hoje ligeiramente me envergonho. Mas de qualquer forma o filme foi feito, e teve o Prêmio Adicional de Renda, então o saldo é mais que positivo.

 

Comentários

Quero muito ver o céu de Suely.

Conheço um site com um bom cardápio de filmes e videos, talvez te interesse:

http://www.ubu.com/film/

Abração.
Roberto Queiroz disse…
Para mim, O Céu de Suely era o filme perfeito para representar o Brasil numa das vagas ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Infelizmente, o Ministério do Audiovisual - mais uma vez, diga-se de passagem - não viu dessa maneira (e desde já não desejo fazer nenhuma crítica a Cinema, aspirinas e urubus, que é um belíssimo filme). Como ele não concorrerá a fina iguaria norte-americana, cabe ao pobre crítico exaltar o trabalho majestoso de Karim Aiñouz, que já havia me encantado em Madame Satã. Abraços do crítico da caverna.
Filipe Furtado disse…
Roberto, O Céu de Suely só é elegivel para o anjo que vem.

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