Cine Majestic

Cine Majestic
De Frank Darabont
DVD, qui 11 agosto 21hs
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O cinema de Frank Darabont está repleto do mais típico cinema americano: assim o foi com seus dois filmes anteriores, Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre. São dois filmes que fazem uma abordagem ligeiramente sombria sobre o tema da liberdade (ambos passados em prisões) e o preconceito contra o passado do indivíduo. Mas no final o bom e velho cinema americano triunfa, com a possibilidade do perdão e das boas intenções. Cine Majestic propõe uma revisitação ao cinema de Frank Capra, e não é raro lembrarmos de cenas de A Felicidade não se compra ou A mulher faz o homem. O homem comum novamente faz o papel de grande herói, de símbolo do desejo de reconstrução moral de uma nação, e o cinema de Frank Darabont o faz de forma cerimoniosa e que tende ao acadêmico, com um ritmo lento e monocórdico que faz seus filmes respirarem um convite a uma falsa e superficial reflexão, como os mais ambiciosos produtos do cinema dramático americano. Mas o grande ponto de interesse de Cine Majestic é como seu enredo se entrelaça de forma até certo ponto confusa e desparatada, lembrando os recursos de dramaturgia do cinema indiano: grandes períodos históricos, grande opulência de produção, grandes reviravoltas e descontinuidades narrativas. A trama é ambiciosa e tenta entrelaçar no mesmo filme três aspectos importantes da vida histórica americana: o fracasso do retorno dos filhos americanos da Guerra, o macartismo e a caça às bruxas, o fechamento dos cinemas de rua no interior americano. A citação a esses três temas torna a primeira metade de Cine Majestic melancólica e sombria como típico filme de Darabont. Mas então surge todo o esforço de reconstrução: o herói Luke, a liberdade da democracia participativa da cidadezinha do interior, a reinauguração do cinema. Mas a verdade volta, e a morte de Martin Landau, sugestivamente quando o personagem de Jim Carrey retoma a memória e o rolo do filme pára, traz um novo marco zero para o enredo, e em seu terço final, Cine Majestic se perde completamente, até o equivocadíssimo discurso do herói ante o Comitê. Mas mesmo em seus atropelos, Cine Majestic é comovente: sem contar com toda a exuberância técnica de uma grande produção americana, é nítido o esforço de desejo do diretor, é nítido por detrás do academicismo de vernil, seu desejo em denunciar e reformar uma sociedade americana de que ele nitidamente faz parte. Entre sua ambição e sua ingenuidade, Cine Majestic é mais um produto do cinema hollywoodiano que, apesar de irregular, mostra um estilo, um desejo, um olhar. Pouco, mas o suficiente para mostrar que Frank Darabont sempre tem algo a dizer, apesar de que, desta vez, seu olhar soe anacrônico e não raras vezes reacionário. Por fim, o tema da memória e da nova identidade faz os melhores momentos de Cine Majestic. A reinauguração do cinema tem seu charme; Jim Carrey se esforça no papel principal, mas o representa sem grande convicção, e a sua namoradinha não consegue escapar do desastre. O fato de ter misturado de forma atípica três grandes enredos e de tocar em algumas feridas não cicatrizadas da sociedade americana fez com que Cine Majestic fosse um fracasso de crítica e de público. Esperemos a próxima grande produção de Darabont, torcendo, é claro, para que tenha o tom sombrio e visionário de seus filmes anteriores.

Comentários

Marcos A. Felipe disse…
A propósito do cinema de "boas intençõ0es": já viu o novo Waltinho?

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