NA CIDADE BRANCA
NA CIDADE BRANCA
(Dans la ville blanche, 1983)
de Alain Tanner
Incentivado por um belo post do André
Parente sobre o filme (ver aqui), acabei vendo esse trabalho do Alain Tanner, que eu
sempre tive muita curiosidade em conhecer, mas nunca tive oportunidade. Ele
sempre esteve ali na minha fila de pendências (que cada vez se estende mais
rs). E este foi o primeiro filme que vi desse cineasta suíço.
Fiquei muito impressionado: como
é bonito esse filme! Ele fala de um marinheiro que decide largar o trabalho num
posto em Lisboa e ficar simplesmente vagando pela cidade, sem rumo. É
interessante pensarmos que Tanner também foi um marinheiro (ele serviu na
marinha mercante) e que usa toda a simbologia do marinheiro e do mar para
compor esse filme. Poderia lembrar de um conjunto de filmes, mas me lembrei de Transit, de Petzold; de Inferninho, do Coletivo Alumbramento; e
também de A matéria noturna, de
Bernard Lessa. Lembrei também de O jogo
da vida, do Capovilla, na forma como compõe uma espécie de painel de
crônica de uma cidade.
Mas esse marinheiro é,
sobretudo, um trabalhador cansado de seu ofício, que resolve adotar uma cidade
como um lar. Ele encontra, então, outra trabalhadora: a atendente de um
bar-hotel. “Dois perdidos numa noite suja”. E a cidade. É incrível como Tanner
filma a cidade de Lisboa, como um estrangeiro que consegue adotar uma cidade
como sua. E como o cinema do Tanner, que é muito ligado à paisagem, precisa se
adaptar para as configurações específicas de Lisboa — suas ladeiras
labirínticas, sua memória, o porto.
Para Tanner, a paisagem é sempre
uma cultura. Não é apenas uma geografia física estática, mas espelha os modos
de ser. Por isso, nunca vemos uma Lisboa turística ou meramente decorativa com
seus monumentos históricos. Uma cidade branca — a ser ocupada pelos corpos e
preenchida pelos imaginários. Uma cidade a ser percorrida, mas também a ser
inventada. Fico pensando que um filme como esse só poderia ser passado em
Portugal (essa terra que tem um passado-monumento, mas que parece não ter um
projeto de futuro) e de como o processo do filme deve ter se contaminado pelo
próprio percurso e pelo convívio com a cidade.
Um trabalhador (um operário da
casa de máquinas) que também é um poeta, que escreve cartas e que também filma
com sua câmera Super-8. Um filme documental, mas, ao mesmo tempo, com uma
fotografia deslumbrante do grande Acácio de Almeida e uma mise en scène
profundamente rigorosa. Delicada, flexível, mas rigorosa.
Há um enorme trabalho de atuação
do grande Bruno Ganz. É bonito ver quando um ator realmente compreende o seu
papel e mergulha de cabeça nessa aventura — e como o filme ganha com isso. Ganz
consegue expressar toda a sua solidão e toda a sua fragilidade combinada de
forma orgânica com toda a sua curiosidade e seu desejo pela vida.
De novo, eu me remeto à frase de
W. H. Auden: “ser livre é muitas vezes ser só”. O mar. O marinheiro que busca
um porto seguro, mas que navega em deriva pelas ruas e becos da cidade de
Lisboa. Lisboa se revela um mar labiríntico a ser percorrido sem bússola.
A ideia de deriva é muito forte
em todos os filmes de Tanner. A deriva como projeto político. Personagens que
estão cansados de seguir os padrões do trabalho e do capital e simplesmente
mergulham em deriva pela vida. Geralmente fracassam, mas não importa: viveram,
atiraram-se pelo mundo, amaram, beberam, dançaram, mas também foram
esfaqueados. Lançar-se em deriva pelo mundo, com suas dores e delícias.
É um cinema que também assim o
faz: um cinema contemporâneo, porque não faz questão de localizar o espectador
com origens e destinos, com mapas psicológicos ou sociológicos, mas que combina
real e criação de forma orgânica (ou ainda criação e vida) e mergulha numa
espécie de “presente eterno”. O que importa, sobretudo, é saborear o presente
com seus pequenos gestos, pois o dia de amanhã não saberemos!
Não é possível ficar; é preciso
partir. Mas agora não mais em um navio, mas sim em um trem — o trem-cinema. E
daí vêm aqueles planos finais, que valem por todo um cinema: olhar, ter fé no
olhar, “fé na vida, fé no homem, fé no que virá!”. Olhar para o mundo,
reconfigurar o olhar, acreditar na potência do instante e na possibilidade do
encontro. E nesse instante, o olhar vira cinema. A vida não se dissolve, mas se
funde num ato de fé, de imaginação, de criação, ou, se preferirem, simplesmente
de desejo, de amor.
Comentários