MESSIDOR
MESSIDOR
(Messidor, 1979)
de Alain Tanner
Logo depois de ter visto Na Cidade Branca, no mesmo dia resolvi prosseguir com outro filme do Tanner —
agora Messidor, realizado em 1979, poucos anos antes do filme lisboeta. Esse
lindo filme é certamente um dos mais delicados e um dos mais tristes filmes europeus
do final dos anos 1970.
Duas jovens suíças se encontram
por acaso ao pegarem carona na estrada e engatam uma inseparável amizade. Uma
da cidade; outra, do campo. Ambas cansadas do trabalho e sem perspectivas,
resolvem viajar pela estrada até se perderem em deriva, até perceberem que a
viagem não tem mais volta. Vendo esses dois filmes, já fica claro que a grande
questão do cinema de Tanner é a deriva: trabalhadores que largam seus empregos
e se aventuram pelo mundo, sem destino.
A solidão nesses dois filmes é
aterradora. Se em Na Cidade Branca Bruno Ganz encontrava a personagem de Teresa
Madruga, em Messidor as duas jovens formam uma forte e íntima relação de
solidariedade. Mas a amizade e o afeto parecem insuficientes para resistir à
crueza e à indiferença do mundo. O filme ficou conhecido como uma espécie de
precursor de Thelma & Louise, mas
vejo-o muito mais próximo de Badlands
(Terra de Ninguém), de Terrence Malick. Ambos são filmes dos anos 1970 que
mostram jovens desiludidos que questionam a moral de um sistema perverso. Messidor tem um clima poético e
melancólico, quase existencialista, que a meu ver se afasta do (muito bom)
filme de Scott, que opta por outras estratégias.
Vejo também Messidor como uma espécie de herdeiro de certo tipo de cinema noir,
sobre pessoas que se tornam "fora da lei" por acidente e embarcam
numa viagem pela estrada sem fim. Algo que se aproxima dos filmes de Jacques
Tourneur ou do clima de um Detour
(Curva do destino), mas também de filmes de fuga como They Live by Night (Amarga Esperança).
De todo modo, essa espécie de
noir existencialista é um filme de "paisagem política". Me explico
melhor: de um lado, o filme mostra o outro lado de uma Suíça muitas vezes vista
como equilibrada e calma. O filme é duro ao vasculhar uma espécie de abismo ou
vazio moral do interior suíço. De outro lado, a própria paisagem suíça se
apresenta como um personagem — do verde dos campos para o gelo dos Alpes,
passando pelos currais nas fazendas ermas.
É curioso pensar nas semelhanças
e diferenças entre Na Cidade Branca e
Messidor, e daí vemos como Tanner é
um grande realizador. São dois filmes de personagens desencantados pelo sistema
institucionalizado e que resolvem se perder. No entanto, as grandes diferenças
ocorrem pela incorporação criativa da paisagem — vista não apenas como
geografia física, mas como modos de ser. A Lisboa urbana e seus becos
labirínticos possui uma geografia totalmente diferente das amplas planícies
ermas do interior suíço. Para Tanner, o uso da paisagem está muito longe de
meramente fazer filmes bonitos; é uma forma política de mostrar estrangeiros
distanciados de um mundo.
Quanto mais as duas jovens
mergulham em deriva, mais elas se perdem e se isolam. Num certo momento, o
filme ingressa tão profundamente na paisagem montanhosa dos Alpes, com uma
decupagem rigorosa e uma forte presença da natureza, que me parecia quase um Bandidos em Orgosolo*, do Vittorio De
Seta.
Fragmentado e elíptico, Messidor recupera breves momentos ao
longo do caminho: pequenos encontros, acidentes, violências, maus-tratos,
gestos de ajuda e ternura — a vida em suas dores e delícias. A busca por comida
e abrigo. De novo, cabe a frase de W. H. Auden: “ser livre é muitas vezes ser
só”. A liberdade desse filme chega a doer. É tudo muito triste. Cada vez mais
as meninas são encurraladas para um caminho sem fim. Não há saída contra o
sistema, a não ser o total isolamento e a morte. De um filme existencialista, Messidor ao final se torna fatalista e
quase niilista. O desfecho, filmado de forma muito consciente e sóbria, tem um
tom que lembra O Dinheiro, de
Bresson. O fatalismo me remete, novamente, ao noir.
Ao mesmo tempo, parece-me duro
que um diretor homem filme mulheres que sofrem até o final, sem perspectivas.
Os pequenos momentos de afeto, no entanto, conseguem nos convencer de que o
trajeto da vida — ainda que sem sentido e guiado pelo absurdo — talvez possa
valer a pena.
Comentários