Clint e Oliveira: tão longe e tão perto


Clint e Oliveira: tão longe e tão perto

(ou por uma aposta radical em certo tipo de anacronismo)


    Estou buscando escrever sobre cada filme que vi nesta minha estada em Aracaju. De alguma forma, esse gesto me aproxima do início de minha cinefilia, quando abri este blog: um desejo de que a escrita funcione, de certa forma, como um diário em que compartilho para o público leitor (haverá ele? Quem será?) minhas impressões sobre o filme, mas sobretudo para mim mesmo. A escrita como um gesto de autoconhecimento — não apenas sobre a obra em si, mas sobretudo sobre mim mesmo.

    Nesta semana, no Cineclube Solberg, diante de uma plateia corajosa de doze pessoas, vimos Um Filme Falado, de Manoel de Oliveira. É um filme que eu havia visto uma única vez, em junho de 2005, e, para minha surpresa, não só me lembrava muito bem da maior parte dos planos, como a revisão alterou muito pouco a percepção que tive inicialmente, mesmo após esses mais de 20 anos de distância. Por isso, não tenho muito a acrescentar em relação aos dois textos que escrevi à época (ver aqui e aqui).

    Há algo, entretanto, que gostaria de comentar. Revi este filme poucos dias após ter revisto Gran Torino, de Clint Eastwood — este sim, eu não havia escrito sobre e, infelizmente, me lembrava de poucos elementos. Ver esses dois filmes quase em seguida me fez inevitavelmente traçar algumas associações entre ambos pois, apesar de serem obras muito diferentes, guardam muitos pontos em comum.

    A principal semelhança é o fato de serem obras de artistas veteranos que, no auge de sua maturidade, realizam filmes profundamente coerentes com suas trajetórias, sem a menor preocupação em “serem compreendidos” ou de se adequarem às exigências dos novos tempos. Muitas vezes ficamos com a impressão de que as pessoas idosas precisam “se modernizar” ou “se atualizar” para que possam permanecer integradas à sociedade. Esses filmes rejeitam frontalmente esse rótulo.

    A grande lição desses dois filmes é a aposta radical em uma espécie de anacronismo. Ainda que sejam obras muito calcadas em seu tempo presente (a comunidade de imigrantes nos Estados Unidos e o impacto da União Europeia em Portugal), esses cineastas enunciam uma opção deliberada pelo classicismo como forma ética de expressar seu distanciamento das “tendências artísticas” do seu próprio tempo. Se pensarmos esses filmes como espelhos do cinema dos anos 2000, é preciso perceber que são obras filmadas em película 35mm, e não em digital.

    Esses dois filmes, de formas muito distintas — e eu diria quase complementares —, abordam um “choque de civilizações” e a importância da manutenção de uma certa ordem que salve a humanidade perdida do caos. São filmes que, assim, podem ser vistos como conservadores: Clint buscando manter os valores ancestrais da “velha América”, e Manoel, os valores de formação da Europa Ocidental. Ainda assim, eles estão longe de serem puristas: eles compreendem a América e a Europa como a soma ou a resultante, não sem tensões, de um conjunto de outras culturas e expressões. Mas os instrumentos e estratégias que os dois cineastas usam para resgatar esses valores são absolutamente diferentes: para Clint, é preciso resolver no confronto e na violência; para Oliveira, por meio da educação, do conhecimento e da memória.

    Mesmo que não necessariamente concordemos com a premissa de que esses valores tradicionais precisam ser conservados (a América e a Europa), saímos comovidos com o gesto tão honesto, frontal e coerente desses cineastas em resistir contra o espírito do seu próprio tempo (o Zeitgeist). Eles optam por se posicionar em uma corrente contra-hegemônica, contra um projeto de modernidade, sem qualquer receio de parecerem antiquados ou anacrônicos. Mantêm-se fiéis, cada qual ao seu modo, a um projeto ético de cinema que vieram trilhando há muitas décadas — e mesmo que o mundo pareça indiferente aos seus anseios, eles permanecem expressando seu olhar, insistindo em uma espécie de intransigência ou de teimosia — ou, se preferirem, em uma aposta deliberada por um certo tipo (muito útil) de anacronismo. Diante de um mundo da arte que precisa o tempo todo afirmar-se como novo, em processo de contínua renovação e atualização, esses autores insistem em se apresentar como “velhos”. Nesse caso, o anacronismo é um sinal de resistência, e não como “falha de atualização do sistema”. Curiosamente, esses cineastas “não ficaram para trás”, mas revelam-se paradoxalmente, à frente do seu tempo.

 

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