André Scucato e o cinema de poesia

Assisti mais uma vez, agora com um pouco mais de calma, o DVD dos curtas do André Scucato. É curioso, mas só agora percebi como a sua visão de cinema é completamente diferente da minha, mas ainda assim é muito próxima, e isso é muito interessante. Scucato tem um olhar profundamente deslumbrado pelas possibilidades técnicas do cinema, especialmente as da edição não-linear que o vídeo possibilita. São os efeitos de cor, de textura, de corte, de sobreposição, são as possibilidades da própria câmera, o diafragma, o zoom, o foco, a portabilidade. É um trabalho muito deslumbrado com a possibilidade de fazer cinema, um trabalho com grande frescor, com grande energia. Mas ao mesmo tempo fica claro que Scucato não é simplesmente um técnico, seu trabalho é um trabalho de construção particular e rigoroso, com as ferramentas do cinema, com a possibilidade de um cinema de linguagem, artisticamente estimulante. Então Scucato vai fazer um trabalho radical, que vai recusar tudo o que não seja essencial à sua busca, tudo o que possa fugir de um projeto de cinema que seja essencialmente experimental. Por outro lado, é um cinema prosaico, quase naive, no sentido de tentar buscar um sentido de poesia nas coisas mais prosaicas da vida e que acabam nos passando despercebidos (um jardim, um elevador, um banheiro, um trem), tudo é meio para o poeta recriar artisticamente um sentido da vida. Por trás da vida corrida da grande cidade de grande mecanização, Scucato busca a sublimação de um desejo por um mundo transfigurado mas que ao mesmo nos permita achar o sublime nas coisas mais simples. É nesse sentido, um cinema puramente romântico, mas um romantismo de base materialista, porque os elementos de linguagem e a manipulação do material fílmico continuam sendo a base do seu cinema de investigação, um cinema de busca. São trabalhos que surpreendem porque são inacabados, daí o seu frescor. Talvez seu trabalho mais bem acabado seja o Três Tons, porque a estrutura ternária já permite isso. A série Crisântemos, que no DVD não tem completa, me fascinou bastante, e me lembrou dos hand painted films do Brakhage. Ou seja, há sem dúvida ainda bastante a caminhar, mas é um trabalho extremamente promissor, porque já aponta tudo o que os primeiros filmes precisam ter: um olhar pelo cinema e pela vida, uma declaração de princípios do que o cinema pode ser, do que se busca no cinema, do que lhe interessa investigar em particular. Por fim, é curioso como seus vídeos são mal compreendidos, mesmo sendo trabalhos muito objetivos e muito simples num certo sentido. É incrível a resistência das pessoas a um tipo de cinema que realmente tenha sua coerência particular, seja uma investigação cuidadosa. Se não for narrativo, tem que ser clipe, tem que ser fashion, tem que se engraçadinho, senão é muito chato, não serve. Ou seja, Scucato é um dos nossos, então junte-se aos bons!

Comentários

Moacy disse…
Sua análise é muito boa, mas como, infelizmente, não conheço a obra de Scucato, não posso dizer mais nada a respeito. Um abraço.

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