Não Por Acaso

Não Por Acaso

de Philippe Barcinski

São Luiz 4 qua 13 19:20

* ½

 

Não Por Acaso era um dos filmes que eu tinha maior expectativa, desde que acompanhei, há bastante tempo o desenrolar do projeto, e tive acesso a uma versão do roteiro, aqui onde trabalho. Barcinski é um dos mais talentosos curta-metragistas da nova geração, e por ocasião da Mostra do Filme Livre, escrevi um trabalho sobre a sua filmografia, tentando defender que Barcinski não é simplesmente um formalista mas que seus trabalhos apresentavam um diálogo entre razão e emoção, que por trás dos jogos formais de grande rigor existia um coração que pulsava. E o que estava em jogo no roteiro era exatamente isso: era como se Barcinski fizesse uma espécie de resposta aos críticos que diziam que seus trabalhos são muito formalistas e que seu estilo não serviria para um longa. Seu projeto era uma espécie de resposta a isso, uma espécie de reação de uma humildade profunda mas sem abrir mão de uma proposta de cinema pessoal que ele vinha desenvolvendo nos seus trabalhos anteriores. De um lado, um longa “com vários curtas dentro”, com uma narrativa fragmentada em histórias paralelas que inesperadamente se cruzam a partir de um acidente de carro (como em Amores Brutos). De outro (e isso é o que eu achava mais emocionante), um trabalho sobre pessoas que, a partir de acontecimentos de um “acaso”, acabam pondo em cheque suas convicções racionalistas, e com isso se abrem para o mundo. Ou seja, o acaso provoca uma falência de um  sentido racionalista, como no primeiro episódio do Decálogo do Kieslowski. As relações entre acaso-destino e entre racionalismo-intuição me fizeram associar o projeto ao cinema do Kieslowski e isso na época me impressionou muito. Como se esse longa fosse na verdade o próprio processo para o Barcinski de quebra desse lado formalista e de entrada num mergulho de um cinema de atmosfera e de personagens, de dramaturgia, de carne e osso. Da mesma forma, o que me chamou muito a atenção é que o projeto de Não Por Acaso é tudo o que eu sempre acreditei que deve ser um “primeiro filme”: uma espécie de colocar-se à prova, de ser uma declaração de princípios do que se espera do cinema, e de até que ponto se está apto para fazer isso ou não. Por tudo isso, as expectativas em torno do filme eram as maiores possíveis.

 

Mas aos poucos eu fui percebendo que o filme não aconteceu, ou não aconteceu como inicialmente se previa. Primeiro, a não-seleção em Cannes, e sua passagem muito discreta pelo circuito dos festivais, a que a filmografia do Barcinski está bem acostumada.

 

Mas fui eu lá para ver o filme, só depois de ele ter estreado comercialmente, com uma ansiedade do tamanho do mundo. E me deu uma grande tristeza ao final da projeção. Pois se Não Por Acaso não é um filme ruim (ao contrário, ele está bem acima da média dos filmes ficcionais que estão sendo feitos no Brasil), por outro lado me passou a impressão de ser um projeto abortado, de ser um retrato pálido de tudo o que estava em jogo para Barcinski no filme. E creio que muito dessa “palidez” se reveste no eterno conflito entre arte e indústria, entre mercado e festivais. Para fazer um filme que “tivesse um apelo maior”, Barcinski simplesmente fugiu das características da sua filmografia e fez um filme sem alma, sem sangue. Imagino que as pressões da O2 e da Globo Filmes tenham contaminado o projeto de forma a tirar dele sua possibilidade de expressão e poesia. E lamentei muito que o Barcinski não tivesse a possibilidade de enfrentar isso e superar essas dificuldades e buscar a sua linguagem pessoal, que está quase que adormecida no filme. Até porque claramente o filme é bastante pessoal, mas isso foi se esmaecendo até a versão final do filme, que é quase sem tez. O grande exemplo disso é o uso da música, que já foi muito comentado, o quanto é ruim, vulgar, sem inspiração.

 

O grande avanço de Barcinski foi fazer um filme afetuoso, intimista, sobre esses personagens que, tendo que reagir diante de uma morte, acabam encontrando um mundo, uma nova possibilidade. Fez um filme sóbrio, sem grandes estardalhaços sobre o tema, um filme simples. Um filme de atores, em especial Leonardo Medeiros e Rodrigo Santoro, ambos muito bem, em especial Santoro, que compõe um jogador de sinuca sem os estereótipos da “malandragem” que seriam típicas do jogador, e ao mesmo tempo compõe um personagem avesso aos maneirismos do galãzinho jovem. Corpo, olhar, intenções, trabalhadas de forma simples mas muito funcional. Por outro lado, as mulheres não estão tão bem: Sabatella está péssima, e a outra menina namorada do Santoro que morre é totalmente sem expressão.

 

Por outro lado, em termos da artesania do filme, esperava muito mais, já que os curtas de Barcinski sempre se destacaram pelo esmero visual. Nisso Não Por Acaso é meio relaxado, especialmente quando pensamos nesse lado obsessivo pela racionalidade dos dois personagens principais. Isso, que no roteiro era levado às últimas conseqüências, no filme ganha um contorno tímido, mas que ainda assim são as melhores partes do filme (as jogadas na sinuca, o mapa de trânsito, etc.). Mas no geral, a fotografia e a decupagem não revelam aquele rigor típico dos filmes do Barcinski e que aqui seria interessante para acentuar esse lado racionalista e frio dos personagens, que aos poucos vai se quebrando (esse seria o encanto do filme em termos visuais...)

 

Um ponto que se destaca no filme é como Barcinski filma a cidade de São Paulo, como essa geografia física é elemento constante no filme, e de uma forma criativa, em como a cidade caótica é vista com um certo olhar de poesia pelo diretor. Ora, se é preciso extrair poesia do fundo de seus personagens obsessivos pela racionalidade, o mesmo pode ser pensado para a cidade de São Paulo. Aparentemente “formalista” e “racionalista”, a cidade tbem desvela por trás de suas veias de aço, seu coração humano e sensível. A relação entre a geografia urbana e íntima, entre as superfícies e o interior, da cidade e das pessoas, dá um tom afetivo ao filme, até porque Barcinski escolhe sempre os meios-tons, e não carrega no melodrama, o que é sempre acertado.

 

Simpático, cheio de boas intenções (o papel do acaso, a morte como encontro, a crise da racionalidade, a geografia urbana), Não Por Acaso revela um cineasta talentoso, mas que entregou seu projeto para a necessidade de “falar menos para mais pessoas”. Esperamos, sinceramente, que Barcinski, com as lições do que não funcionou, aposte na sua linguagem particular, porque certamente é um cineasta que tem o que dizer. Mas precisa dizer isso da sua forma, e não de uma forma outra. A busca de Barcinski por um cinema afetivo e íntimo, dada a sua trajetória, é comovente, mas é preciso fazer isso sem perder sua linguagem rigorosa e particular. É preciso ter ternura sempre mas sem perder o rigor.

 

 

Comentários

Elisa disse…
gostaria muito do texto que compara mecanica dos fluídos e do transito nas ruas..
elisamerlin@gmail.com

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