O Aprendiz

É claro que a vida é uma aventura dolorosa e que o trabalho quase sempre é uma experiência embrutecedora, mas nada que nos pudesse levar a crer no que se vê em O Aprendiz. Roberto Justus, ao promover uma seleção de candidatos para uma vaga de trabalho, expõe uma série de cicatrizes sobre a vida e sobre o mercado de trabalho, levando ao limite uma idéia de seleção de RH como uma gincana. Organizados em falsos grupos, em que a experiência de equipe reforça as veleidades pessoais e o senso de auto-aniquilamento, a vida para os candidatos de O Aprendiz é a selva darwiniana, é a visão do sucesso a qualquer preço. Eles se expõem ( a palavra “expor” tem um sentido contundente, próprio dos “reality shows”) abandonando qualquer código de ética e sendo de dignidade. O “american way of life” é visto em toda a sua terrível boçalidade, num processo de explícita animalização: numa selva, as feras se engalfinham pela sua sobrevivência. Num país de enorme desemprego como o Brasil (e como tantos outros, já que a crise do nível de emprego é constante nas economias capitalistas), a humilhação dos candidatos atinge níveis impensáveis. Mais que o ingênuo trabalhador de Ladrões de Bicicleta, agora, o fracasso é meramente pessoal, uma simples questão de equilíbrio de forças: os fracos morrem. A vida se revela um circo dos horrores: O Aprendiz é uma das maiores experiências masoquistas do entretenimento contemporâneo. O ápice orgástico do “show” se dá na palavra do “patrão”: “você está despedido!”. A perda da atividade do grupo reforça o sentimento de culpa e a necessidade de acusações pessoais e vexatórias: é preciso encontrar um culpado. Absolutamente cristã, a “sala de reuniões” torna-se uma espécie de tribunal, onde será vista uma versão de um “juízo final”. Ao lado de Roberto Justus, entronado como Deus, com sua fala mansa e seu olhar onipotente, existem dois conselheiros que incorporam os sensos de justiça e de donos da verdade. O cúmulo do olhar masoquista é o oferecimento dos prêmios: numa montagem paralela quase fascista, o grupo vencedor é visto bebendo champagne em Buenos Aires, enquanto o perdedor se perde em calúnias e acusações. Ou melhor, o paraíso e o purgatório. O “mercado” é o suposto deus auto-regulatório: as regras são claras, com metas claramente identificáveis e factíveis. Não há ambigüidades no mundo de O Aprendiz. Por isso, soa quase como uma ironia a abertura do programa ser na Bienal de São Paulo: no mundo de Roberto Justos, não existe arte. A vida é uma experiência de “corrida contra o tempo”, entre o dinheiro e o poder. As relações humanas definham, o que é humano sucumbe: O Aprendiz, entre seu masoquismo explícito e seu voyeurismo sádico, apresenta nas entrelinhas do jogo e da diversão, a difícil tarefa de sobreviver no mercado de trabalho, no mundo capitalista de hoje. Por trás da sedução do poder e do desafio competitivo, O Aprendiz produz um profundo rancor no espectador, um senso de derrotismo gratuito e um corrosivo sadismo que parece querer nos convencer de que o inferno é aqui. E nos leva a gostar disso.

Comentários

Fabrício POA disse…
Concordo com o que foi escrito, é mais um dos terríveis programas da televisão aberta brasileira ...

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