Bizarros peixes das fossas abissais

BIZARROS PEIXES DAS FOSSAS ABISSAIS

de Marão



 

Bizarros peixes das fossas abissais representa a trajetória de um dos mais importantes artistas da animação brasileira. É preciso começar esse texto dessa forma, pois é preciso repetir e enfatizar esse ponto para que nós não nos esqueçamos disso. Marão – o lendário Marão – tem sua trajetória relacionada ao cinema independente brasileiro, aquele que surgiu nos cineclubes e nas mostras de cinema no final dos anos 1990, e ao mesmo tempo é herdeiro de uma geração pioneira da animação brasileira, fruto da parceria do Canadá e do CTAV. Os curtas de Marão se tornaram antológicos no circuito dos cineclubes independentes brasileiros, especialmente pelo seu humor inconfundível, por sua ousadíssima irreverência e deboche, até mesmo com tiradas escatológicas, como no clássico underground Engolervilha (um projeto coletivo, ver aqui). Numa época em que o must era o cinema da retomada e seus filmes de patrimônio histórico fossilizados, a irreverência de Marão apontava para outros horizontes, o que se integrava a um sentimento de uma geração inconformada. O que de outro lado também nos lembra de uma certa vertente de animação brasileira, como o cinema de Otto Guerra, e por aí vai.

Mas os brutos também amam, e até os jovens envelhecem. Vejo Até a China, um curta de Marão de 2015, como o marco de um ponto de virada na trajetória do realizador, em que ele busca equilibrar o seu lado irreverente e iconoclasta com uma tendência afetiva e narrativa. Muito além de um mero passeio turístico e exótico à China, o curta de Marão surpreende pela leveza e pela mirada afetiva com que ele desenvolve as relações humanas.

Pois bem. Depois de décadas de uma das trajetórias mais singulares e exitosas do cinema de animação brasileira, finalmente, apenas em 2024, Marão consegue realizar seu primeiro longa metragem, com um título genial Bizarros peixes das fossas abissais. Esse fato é uma maravilha e ao mesmo tempo uma tristeza. O próprio diretor afirma em suas redes “Nunca imaginei que pudesse ter um longa lançado comercialmente”. Essa frase me dói, porque penso: se o Marão não consegue, quem há de conseguir? Decerto que hoje a animação brasileira vive um outro momento, com bem mais reconhecimento e os editais de política pública se ampliaram para os projetos de animação. Mas a animação ainda permanece muito mais voltada à publicidade ou às séries de televisão/streaming do que o cinema. Ainda vejo um enorme preconceito e miopia em relação à animação brasileira no circuito do cinema. No cinema, a animação sempre foi vista como um “patinho feio”. Hoje menos que há vinte ou trinta atrás, quando Marão começou, mas ainda o é.

Mas, por outro lado, contra alguns prognósticos, Bizarros peixes foi feito, e está aí para ser visto. E, para além de qualquer coisa, é um filme coerente com a trajetória desse nosso pequeno grande artista brasileiro. Coerente com a trajetória de Marão, Bizarros peixes não é um filme formatado para os grandes festivais internacionais nem formatado para o mercado de animação brasileiro. Vendo o filme não sabemos muito bem se é um filme para crianças ou se para adultos. O filme possui uma aposta radical numa proposta de ingenuidade – uma ingenuidade, portanto, nada ingênua – mas essa ingenuidade não é a de certos produtos infantis educativos que infestam nosso mercado. Bizarros peixes não foi feito a partir de tabelas sobre “público-alvo” e coisas assim. É um filme sobre o universo de Marão – e a possibilidade de vermos um filme que expressa a trajetória de um de nossos maiores artistas é muito bela. E apenas isso já nos basta. Nada mais. Nada menos. É um filme de curtição. Vejo essa suposta ingenuidade como um enorme sinal de liberdade.

Como dizíamos, Bizarros peixes expressa essa trajetória de maturidade de Marão, nesse modo que considero após o Até a China. Um filme que busca equilibrar os arroubos irreverentes com um eixo voltado para a narratividade e a emoção. O eixo narrativo nos mostra a aliança de três criaturas singulares (uma mulher heroína, uma nuvem e uma tartaruguinha) em torno de um objetivo: coletar os cacos de um vaso, enquanto tentam escapar de seus inimigos que querem capturá-los. A narrativa, apesar de simples, é hábil, pois apenas lá pelo meio do filme, descobrimos o real objetivo da protagonista em reunir os cacos – uma questão familiar, que vai muito além do valor material do objeto. A típica “jornada do heroi” se desenvolve, de modo que nos tornamos próximos dos três personagens, em bela construção de personagens. Esses personagens aparentemente frágeis se tornam os nossos super-herois. E que outro autor, a não ser Marão, poderia reunir Nilópolis, Araraquara e a Sérvia (??!!) dentro de um filme? E como é belo ver a Baixada Fluminense em um filme, local tão pouco representado, e sem os estereótipos de violência e marginalidade comumente associados a essas localidades...

Mas, para além dessa narrativa protojuvenil de afeto mútuo, há uma sequência que gostaria de destacar aqui. E que não à toa migra para o título do filme. É quando o filme praticamente abandona sua vocação narrativa, e mergulha numa viagem ao fundo do mar. É quando finalmente vemos os prometidos bizarros peixes das fossas abissais. Ali, nessa sequência que já considero antológica dentro da trajetória da animação brasileira, me parece que Marão abandonou qualquer responsabilidade de um “discurso” e mergulhou simplesmente no prazer em fazer animação. Que ótimo que consegui ver esse filme em uma sala de cinema, porque a sequência é uma espécie de um balé subaquático, em que os peixes, de formatos e cores as mais estranhas, podem desfilar diante de nós. A animação pura – em seus traços, movimentos e cores – quase de forma abstrata. O fundo do mar surge em fundo negro, o que dá um efeito ainda mais expressivo dentro da sala de cinema. O desenho sonoro, minimalista mas preciso, amplia nossa percepção sensorial. Para além da linda jornada da heroína, creio que esse é o momento de maior potência e liberdade do filme.

Por fim, o final é duro. Após toda a travessia, a jornada da heroína não se realiza por completo. Ela não é totalmente bem-sucedida. Pois mesmo os mais abnegados super-herois não podem resistir contra a corrente do tempo e a inevitabilidade da morte. Mesmo com todos os esforços, essa juventude não irá reverter o fluxo das coisas do tempo presente. O filme finca os dois pés no presente e no real. Nada poderá reverter o fato de que o tempo passa. E que precisamos dizer adeus.

Vi o filme no Cinema do Dragão em Fortaleza em um domingo às 13:40. Não tinham crianças na sessão. Além de mim, apenas mais um casal e duas pessoas jovens. Ao sair do cinema, ainda tocado por essa experiência, vi uma multidão que se aglomerava no saguão do cinema. Atordoado, olhei para a bilheteria com um dizer “ingressos esgotados”. Supreso, percebi que havia uma longa fila para a próxima sessão, o filme do Miyazaki. Esse amplo choque de contrastes me deixou ainda mais atordoado. Que ótimo que um grande público jovem vá a um cinema de rua num domingo à tarde para ver um filme japonês humanista, de um grande artista como Miyazaki. Mas fiquei pensando: por que esse mesmo público não teve interesse pelo fime que passou um pouco antes, realizado por um de nossos maiores artistas? Qual é o abismo que separa Marão de Miyazaki? Não sei responder. Deixei o Dragão e fui caminhando de volta para casa.

Mas Bizarros Peixes existe. É pena que só consegui escrever esse texto agora, quando o filme está saindo de cartaz. Acho triste que a nossa imprensa e a nossa crítica não tenham reverberado mais essa obra, pois ela é fruto de uma das nossas maiores expressões criativas. E acho que isso expressa um certo preconceito que ainda persiste sobre a animação brasileira. De todo modo, obrigado Marão, por você existir. E um viva que Bizarros peixes, contra muitos dos prognósticos, conseguiu ser feito – nesse nosso mundo de hoje de muitas “novas visibilidades” mas também de muitos apagamentos.




 

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