Festival do Uruguai

Pessoal,
uma "cobertura" um tanto tosca e parcial dos filmes que vi no Festival do Uruguai. Os três inéditos no Brasil. Quem sabe num Festival do Rio da vida eles sejam exibidos? Ou então no emule? Depois, escrevo mais, há coisas que gostaria de colocar aqui, nesse meu diário de vida, baseado em algumas reflexões nesses meus dias de férias. A volta é a correria de sempre, mas vamos ver se dá pra colocar no papel algumas dessas reflexões. Bom, os filmes ei-los:

Longas
Os Jogadores (Die Spieler), de Sebastian Bieniek *
20:13 Purgatório, de Joaquim Leitão 0
Elevador (Elevator), de George Dorogantu 0


Curtas
Pop foul, de Moon Molson ***
El camino de Ana, de Richard Vasquez **
Voces em el aire, de Ana Gallego 0 1/2
La partida, de Sebastian Perez 0
Chill Out, de Kamikaze Films 0



Os Jogadores (Die Spieler), de Sebastian Bieniek
O filme de estréia do fotógrafo Sebastian Bieniek na verdade é um trabalho de conclusão de curso, fruto de um seminário dado por Bela Tarr em que, ao final, os alunos eram convidados a realizar, com 2000 euros de orçamento, um curta baseado no livro O Jogador, de Dostoievski. O ambicioso Bieniek resolveu aproveitar a oportunidade para dirigir um longa. O curto tempo de preparação e a precariedade de condições já evidenciam as limitações do projeto, já que a tarefa de adaptação do grande livro de Dostoievski não é das mais triviais. Assim sendo, a falta de profundidade (diria mesmo de consistência) na elaboração de roteiro, e a dificuldade de o filme encontrar seu tom adequado (oscila entre o drama e a comédia de uma forma típica da Europa Oriental – talvez influência do país de origem de Bieniek, esse polonês radicado na Alemanha) tornam sua fruição um tanto frustrante. No entanto, um olhar mais atento revela virtudes, que podem ser desenvolvidas em trabalhos posteriores: um enorme desejo por uma vitalidade, que mal pode ser controlada (abundância de jump cuts, mudanças de cor, alterações de ritmo e tom no curso narrativo do filme, etc). Esse desejo no entanto não parece ser pretensioso mas quase juvenil: uma enorme alegria de poder estar filmando e dar vida a esses personagens. Essa pulsão, e as alterações de tom, dão uma leveza que em seus melhores momentos soa encantadora; em outros (na maioria) o filme carece de uma abordagem mais orgânica sobre o percurso dos personagens e do desenvolvimento da narrativa. Mas de qualquer forma e especialmente em se tratando de um primeiro filme, Die Spieler não chega a ser um fracasso total, e nos deixa curioso sobre a possibilidade de Bieniek, também protagonista do filme, prosseguir seu trabalho, com a mesma intensidade mas com menos malabarismos.


Elevador (Elevator), de George Dorogantu
Já falamos aqui que o cinema romeno contemporâneo é provavelmente uma invenção do festival de Cannes, já que os filmes oscilam tanto em termos de temático/estética quanto mesmo de qualidade (coerência) na realização. Elevator, longa romeno filmado em digital, de George Dorogantu, é quase um filme de escola. Realizado em uma situação-limite (dois jovens presos num elevador), o filme testa as possibilidades da dramaturgia em realizar um longa num único cenário. Seu desafio é no entanto difícil e Dorogantu tenta fugir dos clichês, seja de um inevitável ranço teatral seja de um filme todo em planos fechados, mostrando a claustrofobia desse elevador. Acaba não conseguindo, pela repetição e banalidade das situações que envolvem os dois jovens, parecendo mais um exercício frustrado do que um trabalho acabado digno de ser exibido num festival de cinema.

20:13 Purgatório, de Joaquim Leitão
Esta superprodução portuguesa se passa num quartel-general de militares portugueses em Moçambique. O que poderia ser uma investigação histórica sobre os limites do colonialismo português ou humana sobre a condição iminente de guerra vira mero verniz para um arremedo de entrecho novelesco, que acaba fugindo totalmente do contexto histórico para se revelar uma mistura de um filme de suspense (quem matou “X” ou “Y”) e de dramalhão romântico. Desastrado, longo e arrastado, com cenas de ação mal ajambradas, 20:13 Purgatório é dramaturgia barata, folhetim tosco, totalmente avesso ao espírito do melhor cinema português.


Curtas
Pop foul, de Moon Molson
El camino de Ana, de Richard Vasquez
Voces em el aire, de Ana Gallego
La partida, de Sebastian Perez
Chill Out, de Kamikaze Films


O grande destaque das duas sessões de curtas a que assisti foi o curta americano Pop foul, de Moon Molson, projeto de conclusão de curso de audiovisual na Columbia University. O filme é interessante por investigar as repercussões da violência no subúrbio americano no seio de uma família comum. O pai é confundido com outra pessoa e é agredido por um brutamontes da gang local. Faz um pacto com o filho: que ele não conte para sua mãe o que de fato aconteceu. Chegando em casa, a situação acaba ganhando proporções impensadas, e essa dificuldade em enfrentar de frente os problemas cotidianos da violência acaba gerando mais violência, implícita e explícita. A forma com que o curta trabalha essas gradações de forma efetiva (até devido ao seu tempo de duração) é sua grande força, propiciando uma reflexão madura não só sobre os rumos dos Estados Unidos mas ganhando uma proporção maior, sobre a importância da família e do que realmente significa lealdade.

Os curtas uruguaios que eu vi todos bolinha preta, nível a media dos curtas em video universitarios brasileiros.

Comentários

Sebastian disse…
Hi, I like your comment on "Os Jogadores", would you mind, if I post it on my webpage ( www.tenletters.de ) ?
Best, Sebastian
Cinecasulófilo disse…
Sebatian,
I suppose you are the film director. So, can you read portuguese ? Well, be comfortable, of course you can post it on your webpage. I only ask you to put a reference about this blog (www.cinecasulofilia.blogspot.com) and about the author of the comment (Marcelo Ikeda).
Sebastian disse…
http://www.tenletters.de/21.html

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