Descaminhos

Descaminhos

de diversos diretores

É Tudo Verdade, Odeon, um dia desses

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Esse projeto coletivo de um grupo do cinema mineiro não foi muito bem recebido no É Tudo Verdade. As acusações (o termo é meio esse mesmo) foram de um exacerbado formalismo e de unidade entre os episódios, ainda sendo de diretores diferentes. Descaminhos é um filme de episódios, que busca uma trilha poética entre as estações de trem, suas impressões sensoriais, seus rastros por um interior do Brasil.

 

Ao mesmo tempo em que concordo plenamente com as ponderações sobre o projeto, por outro lado Descaminhos faz parte de uma visão contemporânea do documentário e é um projeto que só poderia ter nascido em BH. É típico do cinema que está sendo feito na cidade, nessa sua articulação livre entre imagens e sons de uma forma particularmente poética, seu olhar de um cinema de linguagem calcado nas sensações e nas formas, um diálogo com as artes plásticas e a videoarte, um viés de um documentário muito pouco didático e mais de invenção, e um percurso particular pelo interior de um Brasil sem um ranço psicológico ou sociológico.

 

Se por um lado podemos entender que Descaminhos oferece uma espécie de diluição dos rumos de uma escola mineira, e que pouco acrescenta ao que já vimos nas melhores produções locais, por outro, a estética do filme anuncia uma continuidade e comprova a relevância da cidade em termos do documentário brasileiro contemporâneo. Daí minha defesa ao filme.

 

Alguns episódios nos dizem mais; outros menos. O primeiro deles, da Marília Rocha, uma das diretoras do Aboio, merece atenção particular, por reconceituar alguns dos pressupostos de unidade dessa escola. Marília trabalha de uma forma bem diferente dos outros filmes, a idéia do registro e da fabulação, a importância da voz off, o plano-sequência e a duração, o caminho do tempo, a idéia do percurso, o que o torna uma certa ilha dentro do longa, cheio de imagens fragmentadas e descontínuas.

 

Algumas idéias um pouco ingênuas, mas de qualquer forma, quem vê Descaminhos sabe que se trata de um filme mineiro, ou seja, que está vendo o melhor cinema que se faz hoje no Brasil. Um cinema de linguagem inventivo, rico e sedutor.

Comentários

Juliano Gomes disse…
companheiro de fileira: eu achei o filme muito problemático justamente porque aponta para uma série de cacoetes de um certo cinema experimental que já foram percebidos por uma certa parcela da povo do cinema e que são usados como marcas de filiação a um cinema que experimenta.

acho que Descaminhos não pára pra se pensar, nenhum deles, parece que seguiu cartilha, um pouco que careta ao contrário, acredita nessa divisão "cinema careta x cinema experimental".

Confirma o pré-conceito que eventualmente se tem contra cinemas mais arriscados. outro dia vi um filme no Cachaça que foi meio que a mesma coisa, uma certa idéia de atribuir aparência experimental a estruturas padronizadas. Acho que Trecho tem isso em menor proporção que Descaminhos. Cartola tem também.

Estou preocupado.
Juliano Gomes disse…
esqueci de dizer que achei o primeiro ótimo, bem bonito mesmo. apesar da forma da que o texto é narrado ser um pouco durona demais.

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