A Criança

Dos Irmãos Dardenne

Espaço Unibanco 1, qua 5 21:30

*** ½

 

 

A Criança

(ou a vida não tem retake)

 

O word (ou o Final Cut) possui uma propriedade mágica que insere a possibilidade do sonho e da imaginação na fria linguagem do computador: a tecla CTRL-Z. Para quem não está habituado às famosas teclas de atalho, o CTRL-Z é simplesmente o comando de voltar, ou o de “desfazer a ação”. Com isso, seja num texto, seja num recurso de montagem, podemos tentar sem compromisso pois, se não der certo, podemos voltar atrás, e tentar de novo, tentar fazer melhor que antes.

 

Mas é claro que mesmo quem não conhece a linguagem da informática (mas todos que estão lendo este texto o conhecem, por suposto) mas conhece a linguagem do cinema sabe do que estou falando. Porque o paradigma do cinema de ficção, o cinema do “supra-real”, é baseado na montagem e no retake. Tudo é preparado artificialmente para “o plano perfeito”: a luz, o movimento de câmera, o texto dos atores, tudo é tentado várias vezes até que funcione. E na montagem ainda se apara e se refaz mais uma vez essa “imitação da vida”.

 

Mas na vida da gente não tem isso: não tem CTRL-Z nem tem retake. É claro que se a gente diz uma coisa que não gostaria a gente pode tentar reverter esse ato. Mas esse ato nunca deixa de existir. É preciso um outro ato, de intensidade mais forte que o primeiro, ou ainda um conjunto de atos, que possam refazer a impressão do mal-entendido do primeiro ato. Ou seja, se falamos “Eu não queria ter dito isso”, a resposta seguinte é “Mas disse!”, e então temos que dizer muito mais coisas para reparar o dano do impulso, da impetuosidade, do momento.

 

Ou ainda, as repercussões de um momento mal pensado podem durar eternamente, porque podem nunca mais serem desfeitas. Ou mesmo que possam ser reparados (pois tudo pode ser reparado, menos a morte), vai levar muito mais tempo e gerar muita dor-de-cabeça.

 

*  *  *

 

É claro também que quando agimos mal, muitas vezes não agimos mal porque queremos, mas porque agimos sem pensar nas conseqüências, ou porque temos um erro de avaliação devido às circunstâncias, ou mesmo porque nessa nossa luta desesperada para sobreviver e para tentar resolver os nossos problemas, não nos damos conta que para fazê-lo muitas vezes causamos muito mais problemas para os outros. Então como podemos ser honestos em relação a nós mesmos e em relação ao mundo? Ou seja, como podemos viver “dignamente” sem machucar as pessoas?

 

Temos que viver, temos que pagar nossas contas, temos que arrumar dinheiro, temos que sobreviver aos traumas do passado. Mas como fazer isso sem machucar as outras pessoas, que nos rodeiam?

 

Ou ainda, é possível dessa forma viver com liberdade? É possível sermos totalmente livres sem machucar os outros? Ou ainda, podemos ser verdadeiramente livres sem ter nenhum tipo de “responsabilidade” com os outros e com o mundo que nos cerca? Se vivermos sem nenhuma “responsabilidade”, será que estamos sendo livres ou estaremos sendo simplesmente egoístas?

 

Não dá pra fugir do mundo. Não dá também pra imaginar que vivemos num mundo diferente, porque as coisas estão aí, mesmo que não sejam do jeito que a gente quer. Não é o mundo ideal, mas não podemos fugir dele. Talvez o que tenhamos de mais importante no mundo seja o outro, pois sozinhos é que as coisas se tornam ainda mais difíceis mesmo.

 

*  *  *

 

É sobre tudo isso o novo filme dos Irmãos Dardenne, chamado A Criança. Pelo menos como pareceu para mim. Um filme sobre o universo da criação, e sobre as relações entre o cinema e a vida (a vida pode nos dar uma segunda chance mas não se pode apagar o que se fez, temos que arcar com as conseqüências dos nossos atos), é um filme (no fiapo de documentário) sobre um modo de se fazer cinema que busque ser honesto e responsável dentro das possibilidades ainda que não seja o ideal. É um filme sobre viver em sociedade, porque (de novo) temos que arcar com as conseqüências dos nossos atos. É um filme sobre a possibilidade de viver em liberdade. É um filme sobre a possibilidade do reencontro. Ou ainda, um filme sobre a vida e contra a solidão.

 

E um filme, claro, em que o modo como se filma essa história, em como essa “história” é apresentada na tela para nós, nos fala muito, mas muito mesmo, de tudo isso, é parte inseparável de tudo isso. Mas sem que essa forma possa oprimir o filme de tal forma que vire uma caricatura de si mesmo.

 

É um grande filme esse novo filme dos Irmãos Dardenne porque, através de uma experiência asfixiante, e da maestria e da maturidade com que os diretores apresentam um olhar sobre a vida e sobre o seu ofício de fazer cinema, nós os espectadores saímos do cinema um pouco diferentes. E, como sabemos que a vida não tem retake, esse sentimento nunca mais sairá de nós completamente. Podemos perder as roupas, o emprego e um punhado de dinheiro, mas isso não vai sair de nós. Pelo menos pra quem vive o cinema intensamente, e leva isso como forma de sobreviver a nossa vida do dia-a-dia, como eu pelo menos busco fazer, ainda que sem muito brilho ou sucesso.

 

Comentários

ricardo disse…
muito foda esse texto.
abs.
Anônimo disse…
é, estás correto, teu texto está exato e é muito bom quando temos essa sensação de complitude.

Eu sentia inconscientemente essas coisas sobre este filme, mas não sabia apontá-las. Tiveste o tato de conseguir enxergá-las, parabéns.

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