ONTEM HAVIA COISAS ESTRANHAS NO CÉU

 

ONTEM HAVIA COISAS ESTRANHAS NO CÉU

   de Bruno Risas

 



O primeiro longa-metragem de Bruno Risas se insere numa linhagem do cinema brasileiro contemporâneo, em torno dos filmes em primeira pessoa, ou ainda, da autoficção. Bruno encena o cotidiano de sua família, utilizando não apenas a si mesmo mas especialmente seus familiares (mãe, pai, avó e irmã) para comporem os personagens de si mesmos. Com isso, ONTEM HAVIA COISAS ESTRANHAS NO CÉU segue uma filiação de filmes brasileiros recentes, como ELA VOLTA NA QUINTA, de André Novais Oliveira, ou VERMELHA, de Getúlio Ribeiro.

Não há como não nos lembrarmos do cinema de André Novais. Assim como André, Bruno utiliza sua mãe como personagem principal, e estabelece a dramaturgia de seu filme em torno do cotidiano de sua família. Ainda, assim como André retratava uma família de classe média (classe C), em Contagem, Região Metropolitana de Belo Horizonte, Bruno Risas também tem uma origem social com diversas analogias, transpondo o contexto para a periferia de são Paulo (o bairro do Bresser-Mooca).

Em ONTEM HAVIA COISAS é viva a forma como a classe média brasileira se representa no cinema – vivendo seus dramas, suas angústias mas também suas pequenas alegrias e sinais de afeto. Diversos temas de nossa realidade social estão presentes no filme de maneira discreta – o emprego informal, a dificuldade financeira expressa na memória dos preços da cerveja no supermercado, a mulher que desistiu do trabalho para cuidar da casa. E, também – e eu diria mais especialmente – a possibilidade de que filhos desse contexto social sejam artistas, que ganhem a vida a fazer cinema – algo impensável no início dos anos 1990. Para mim – uma pessoa que se formou no cinema no início dos anos 2000 – é curioso ver um projeto desse perfil com tantas logomarcas, de empresas produtoras, de laboratórios de desenvolvimento e de finalização, e com editais de fomento de órgãos públicos (a nível local e também federal). São os sinais do tempo – um tempo que parece ter terminado (esperamos que não).

Os pequenos momentos de humor no cotidiano dessa família acabam na verdade sendo o avesso de um programa televisivo como um A GRANDE FAMÍLIA. A família de Bruno, diferente do estereótipo da TV, revela a busca por um cinema genuinamente popular (e não popularesco), que possa dialogar com o ritmo da vida e com a fala e o corpo de pessoas fora de qualquer “star system”.

Ao mesmo tempo, Bruno opta por recursos de metalinguagem que fazem o filme escapar de uma chave tipicamente realista ou naturalista. Exemplos desses recursos são momentos em que sua mãe, com um corpo e voz marcados, recita um texto explicitando como serão suas falas; voz-over do diretor lendo rubricas e cenas do roteiro; a diretora de fotografia (Flora, companheira do diretor) aparece marcando a luz e dimensionando o quadro; momentos em que o próprio diretor aparece filmando, ou ainda instruindo seus pais a como e quando se movimentarem em cena; cenas com coreografia antinaturalista de nítida marcação – em uma delas há até um movimento de carrinho e dramatização tendendo ao melodrama, etc. É preciso também mostrar que essa é uma representação de sua família, ou seja, de que se trata de um filme.

Há também um momento muito forte em que a mãe discute com o diretor após ele tê-la repreendido. Nesse momento, percebemos não apenas que a mãe não é uma atriz, mas especialmente que o diretor não é apenas um diretor, mas sobretudo, um filho. Ele sempre será um filho para aquela mulher – a relação não será nunca a de um diretor com uma atriz.

O realismo também escapa por completo na premissa expressa pelo próprio título do filme. A mãe parece ter visões estranhas da cidade – até o momento em que ela é abduzida. Mas, quando ela volta, nada parece ter mudado (o que me lembrou da surreal abdução de ESTRADA PARA YTHACA [2010], do coletivo Alumbramento). Talvez algo tenha mudado e nós não tenhamos percebido.

Ou talvez tudo seja apenas um filme.

 

 

 

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