Mostra "Olhar do Ceará" - parte II

Rochedo de Mim, de Bárbara Villaverde, também trabalha com bandas independentes de imagem e de som. O som, praticamente todo composto musicalmente, se estrutura a partir de pontuações ambíguas em relação à imagem, causando um desconforto ao espectador que espera por um som naturalista, fidedigno às fontes sonoras. No entanto, seu maior estranhamento ainda está por vir. Ele se dá no derradeiro plano do filme, um grande plano geral com câmera estática, que dura pouco mais de quatro minutos. Nele, Bárbara propõe um conjunto de significados. Em princípio, vemos uma velha fazenda, em que crianças brincam numa roda e servos e senhores percorrem a extensão do plano, subindo ou descendo escadas, andando pela grama que se estende frente à casa. De um lado, existe uma nostalgia, um recurso à memória, na poesia lúdica desse dia-a-dia da antiga fazenda. Mas, apesar de ser uma típica fazenda, são nítidas as marcas do tempo que nos distancia desse remoto tempo ao qual as coisas pertencem. Ou seja, vemos o ontem a partir de hoje, sempre. À distância, vemos escorrer pelo tempo do plano as marcas do abandono, as marcas da saudade de um tempo que não se viveu. Ou ainda, não se trata de um documentário: Bárbara reencena a poesia simples da fazenda com uma mise-en-scène nada trivial: é nítida a marcação de uma coreografia dos deslocamentos no interior do quadro, marcação que no fundo é uma doce, bela tentativa de fazer viver algo que já não mais existe, que se perdeu no tempo. Memória que por um lado é marcada por uma memória do próprio cinema brasileiro, especialmente o clima bucólico do cinema de Humberto Mauro. Rochedo de Mim é como o primeiro cinema, como se fosse um filme dos irmãos Lumière, como se chamasse “um dia na fazenda da família Villaverde”. Acontece que não se trata de mero registro, mas reencenação, tentativa de reviver, filme afetivo, filme de memória, filme-diário. Por isso, é como se, a partir de tudo isso, Bárbara dialogasse com o cinema contemporâneo, como se fizesse Tombée de nuit sur Shanghai, de Chantal Akerman. A diferença é que enquanto Chantal se surpreende com o fascínio e o excesso do mundo chinês, que ela não conhece, Bárbara suspirasse de saudade por um tempo que ela não viveu. Essa doce melancolia, essa ternura inesperada é que resumem a beleza desse enorme tour de force que é o plano final desse misterioso curta.

Morpheu, de André Moura, não está preocupado com o passado, mas, ao contrário, em viver o presente. Esse curta, ainda que irregular, surpreende por sua urgência, por sua necessidade de falar sem meios tons, sem sutilezas, sobre os desafios da vida e do mundo. O filme fala sobre um jovem que quer viver de forma intensa, livre e independente (em outros termos, que quer fazer a revolução) mas que ao mesmo tempo não consegue sair da casa de sua mãe (ou ainda, que nem tem a chave de casa). A forma como o diretor expõe os problemas desse jovem é muito frontal e direta. Ou ainda, desconcertantemente honesta. Todo esse impacto se multiplica pela intensa atuação de Jonnata Doll, músico, performer, ator, artista, que dá uma enorme vida a esse personagem. Uma verborragia que, por meio do seu excesso, sinaliza a vontade desse curta de se expressar, de dizer, mas sua incapacidade de de fato agir. Uma crítica ao mundo capitalista guiado pela mediocridade do trabalho como fim último da existência, mas uma dificuldade de encontrar saídas, de viver desse projeto de vida. É nesse limite entre a aventura do pensamento e o abismo da ação que Morpheu insere uma formidável autocrítica, num formato narrativo raro às produções locais. De outro lado, existem momentos de beleza, de espera, como os planos iniciais do filme, em que o protagonista se levanta, já depois do meio-dia, e vai se servir do almoço, sob os comentários irônicos de sua mãe. Morpheu foge de algumas armadilhas, e entre as cenas mais bonitas do curta, são as que o protagonista se relaciona com sua mãe. Em poucas palavras, em meios olhares, toda a dificuldade do contato, a reprovação e o afeto, se manifestam de forma simples mas intensa, numa estratégia de delicadeza um tanto atípica à energia radiante do curta. Mas que revelam que a busca do curta de André Moura vai além do mero tratamento de choque e das frases de efeito.

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As sessões dos filmes locais, como a Mostra Olhar do Ceará, possui momentos como a exibição do curta As Coisas São Bonitas Nos Olhos De Quem Acha, de Juliana Chagas. Trata-se de um documentário sobre Dona Dica, que faz bonecas de pano, costuradas à mão, em Guaramiranga. O curta registra de maneira singela essa humilde e simpática senhora, que faz bonecas aparentemente feias mas que seduzem as pessoas pela simplicidade de sua beleza. O curta é singelo, embora muito precário, seja tecnicamente seja em sua proposta estética, baseada quase que exclusivamente em entrevistas que meramente valorizam a simpatia da entrevistada mas que não avança em nada além disso. Mas a questão aqui não é essa: a exibição de As Coisas São Bonitas foi sem dúvida o maior momento do Olhar do Ceará, por algo que vai além do curta, além de suas possíveis qualidades estéticas: a presença física de Dona Dica, que ao final da sessão recebeu aplausos e abraços carinhosos, e, visivelmente emocionada, retribuiu as gentilezas com um sorriso. Momento lúdico, de rara beleza, em que aqui a análise se curva à possibilidade de que um filme promova um abraço carinhoso, uma pequena homenagem a uma mulher simples que cultiva a vida e a fabricação de suas bonecas. Nenhum outro momento de cinema nessa mostra teve tamanha força e vitalidade. Ainda que esse momento escape diretamente à força do filme em si, mas é claro que surge em decorrência dele, a partir dele. Esse simples curta possibilitou um encontro, que despontou ali, naquele cinema, naquela sessão, num contato com o público. É belo por isso. Acredito que é pela possibilidade desses encontros que essa mostra precisa ser defendida.

Comentários

Ailton Monteiro disse…
Ah, pelo menos vc reconheceu o momento de emoção popular que foi a exibição do curta da Juliana Chagas. Eu, como amigo dela, fiquei muito feliz com tudo aquilo. :)
Juliana Chagas disse…
Olá querido, agradeço o comentário sobre o meu curta As coisas são bonitas nos olhos de quem acha, foi a 2ª experiência minha com o audiovisual, sou pesquisadora em Artes. A exibição de fato foi emocionante, pra mim, só valeria se Dona Dica estivesse presente, foi uma retribuição a sua amável amizade. Abraço,
André disse…
Obrigado pela crítica, mas tirando o fato que pra mim o personagem não quer fazer a revolução(digo essa revolução que quer levar a humanidade a uma sociedade justa e solidaria)tudo que vc falou condiz com oe meus pensamentos e dos demais. Há a mãe do filme tb é minha maezinha rsss...abracos

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